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FOLK-LORE BRASILEIRO

DO

BRASIL

COLLIGIDOS

SYX-.VIO FLOJ^^EPLO

Seguiula ecIi(;ào luellioracía

LIVRARIA FRANCISCO ALVES

166, RUA DO OUVIDOR. 166 — RIO DE JANEIRO

S. PAULO I BELLO HORIZONTE

49-A, Rua I.ibero Badaró | Rua da Bahia, 1052

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COLLIGIDOS

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Segunda edição melhorada

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LIVRARIA CLÁSSICA DE ALVES & COMP.

RIO DE JANEIRO 134 Eua do Ouvidor 134

S. PAULO 9 Eua da Quitanda 9

1897

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Typ. «CONFIANÇA». Eua General Camará n. 183

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INTRODUCÇÃO

'Vista synthetica sobre o folk-lói*e brasileiro

Um olhar lançado sobre nossa historia, não sobre a historia escripta por A. ou B., por Varnhagen ou Pereira da Silva, velhos declamadores rhetoricos, mas a historia não escripta, a tradição fluctuante e indecisa de nossas origens e ulterior desenvolvimento, um olhar ahi lançado irá descobrir, não sem alguma difficuldade, os primeiros lineamentos de nossas lendas e canções populares. Não existem documentos escriptos de taes factos; os documentos são as lendas e caições mesmas, que são agora pela primeira vez fixadas pela escripta. Quaes foram os primeiros roman- ces e cantos portuguezes transplantados para o Brasil* Quaes os primeiros contos da peninsuia que passaram às nossas plagas?

Por outro lado. quaes os primeiros cantos indígenas e africanos assimilados por nossas populações mestiças ; quaes os primeiros de origem puramente nacional ? Im- possível é aqui responder com uma data como fazem os historiadores relatimente à morte ou ao nascimento dos reis.

As tradições populares não se demarcam pelo calen- dário das folhinhas; a historia não sabe do seu dia na- talício , sabe apenas das épocas de seu desenvolvimento. 0_ que se pode assegurar è que, no primeiro século da colonisação, portuguezes, Índios e negros, acharam-se era frente uns dos outros, e diante de uma natureza esplendida, em luta. tendo por armas o obuz, a flecha e a enxada, e por lenitivo as saudades da terra natal. O portuguez lutava, vencia e escravisava ; o indio defendia-se, era vencido, fugia ou ficava captivo , o africano trabalhava, traba- lhava... Todos deviam cantar, porque todos tinham sau- dades ; o portuguez de seus lares, d'além mar, o indio de suas selvas, que ia perdendo, e o negro de suas palhoças, que nunca mais havia de ver. (1)

(1) Nao esquecer que esta introducção foi publicada em 1879 na Revista Brasileira e plagiada mais tarde pelo Sr. SanfAnna Nery, um singular barão que reside em Paris em seu livro L& Folk-lore Brésilien,

IV

Cada um devia cantar as canções de seu paiz.

De todas ellas amalgamadas e fundidas era um só molde — a lingua portugaeza, a lingua do vencedor, é que se formaram nos séculos seguintes os nossos cantos populares.

O europeu foi o concurrente mais robusto por sua cultura e o que deixou mais tradições. No século XVI, pois, por uma lei de evolução que dá em resultado antecederem as formas simples ás mais compostas, as canções e contos populares das três raças ainda corriam dosaggregados, differenciados. Nos séculos seguintes, sobretudo no XVII XVIII, é que se foram cruzando e agglutinando para integrar-se á parte, produzindo o corpo de tradições do povo brasileiro. Nós ainda hoje assistimos a este processo de integração.

No século XVII o facto já se ia dando e pôde ser avaliado pelo estudo de Gregório de Mattos. A critica myope de nossos rhetoricos, seja dito de passagem, fez um deste poeta renegado corrupto, sem préstimo algum.

Entretanto, Gregório é o documento por onde po- demos apreciar as primeiras modificações que a lingua portugueza soffren na America. A obra de transformações das raças entre nós ainda está mui longe de ser completa e de ter dado todos os seus resultados. Ainda existem os três povos distinctos em face um dos outros ; ainda existem brancrs, Índios e negros puros. Só nos séculos que se nos hão de seguir a assimilação se completará.

O que se diz das raças deve-se repetir das crenças e tradições. A extincção do trafico africano, cortando-nos um grande manancial de misérias, limitou a concurrencia preta ; a extincção gradual do caboclo vae também con- centrando a fonte india ; o branco deve ficar no futuro com a prepoderancia no numero, como já a tem nas idéas. (1).

Lançando uma vista perscrutadora sobre a população brasileira para estudar a sua actualidade, abstracção feita de suas origens e á luz de idéas scientificas, sem prestar ouvidos ás nossas pretenções de grandezas, podemos divi- dil-a em quatro secções naturaes ; os habitantes das praias e margens dos grandes rios; os habitantes das mattas, os dos sertões, os das cidades.

Os três primeiros grupos são indicados pelas zonas em que se divide o paiz. As cidades e villas, com quanto existam igualmente nas três regiões, os seus habitantes tôm caracter especial e formam uma categoria á parte.

(1) Vide Lillertura Brasileira e aa Critica Moderna^ epilogo

Aquelles três grupos, que estudaremos mais de perto, constituem um povo mesclado em escala enorme, apresen- tando mais diversidades de typos do que as variedades de gatos que habitam nossos telhados, para repetir a phrase de Quatrefages.

De não mui grande vivacidade intellectual. tanto que suas industrias são em estado rudimentar, 6 um povo sem claro objectivo politico, sem consciência social e histórica, falho de sciencia e de elevados incentivos, e, ao mesmo tempo, sem mythos e sem heróes. Se não é um povo culto, nem por isso permanece ainda claramente e de todo no periodo polytheico e mythologico das crenças. Está elle exteriormente no periodo theologico, na phase do mono- teismo ; mas ainda com pronunciados resíduos da phase do fetichismo e do polytheismo. Nem é isto ura phenomeno estranho. As populações ruraes da própria Europa são monotheicas na superfície, occultando porém profundos sedimentos do fetichismo e do polytheismo.

Os nossos homens das praias e margens dos grandes rios são dados á pesca ; raro ú o individuo entre elles que não tem sua pequena canoa.

Vivem de ordinário em palhoças, ora isoladas, ora formando verdadeiros aldeiaraentos. São chegados a rixas, amigos da pinga e amantes da viola. Levam as vezes, semanas inteiras dançando e cantando em chibas ou sambas. Assim chamam-se umas funcções populares em que, ao som da viola, do pandeiro e de improvisos, ama-se, dança-se e bebe-se. Quasi todo o praeiro possue o instru- mento predilecto e canta ao desafio. Se os lavradores visinhos mandam covidar esta gente para traballiar nas roças, ella não apparece muito facilmente. Se a convida para ura chiba, apparecem cincoenta de pancada.

Tivemos occasião de verificar o caso em uma fazenda da costa. Havia um hospede em casa que desejava vér um chiba para estudal-o; apresentou seu desejo ao dono da fazenda e este mandou chamar comparsas para a funcção. Já era por farde quando se deram as providencias; antes, porém, de vir a noite mais de cincoenta cavalheiros e damas estavam dançando no salão! Lembramo-nos de um velho que, não podendo mais dançar e tocar, dizia melan- colicamente: eu fui aquelle que pissuiu sete violas...

Isto é característico. Os habitantes das mattas são dados á lavoura e chamados mattutos era Pernambuco, tabaréos em Sergipe e Bahia, catjpiras era S. Paulo e Minas, e mandiocas em algumas partes do Rio de Janeiro. Também são em geral madraços e elevam todo o seu ideal a possuir um cavallo, um pequira, como chamam. Vivem

VI

de ordinário nas terras dos grandes proprietários, que são verdadeiros senhoras feudaes, a titulo de aggregados.

Os homens dos sertões são criadores. O sertanejo, que não é grande proprietário é, por via de regra, vaqueiro. Este é um typo brutal, vestido de couro dos pés á cabeça, monteador feroz ; sempre cavalleiro eximio.

Os habitantes das três zonas, aqui descriptos ra- pidamente, são supersticiosos. Suas superstições divi- dimol-as em duas classes: as que têm tomado um ca- racter mais ou menos accentuado e histórico por vezes, as ordinárias e communs. As primeiras hão sido certos phe- nomenos com caracter pseudo-religioso. Eníre ellas, des- taca-se o movimento ha já alguns annos produzido por um tal Maurer, no Rio Grande do Sul, e de que os jornaes deram conta. Um impostor arvorou-se em propheta e arre- banhou após si grande numero de ingénuos e velhacos. Mais temeroso foi o phenomeno da Pedra Bonita ou Reino Encantado em Pernambuco, em 1836. (1) Houve ahi scenas horriveis de fanatismo e larga carnificina. Mais recente- mente tivemos o ensejo de estudar dous acontecimentos análogos, ainda que mais innocentes. Um passou-se no logar denominado Carnahybas, próximo á Villa do Riachão, antiga província de Sergipe. Dous pretos velhos alienados fizeram morada em uma casinhola onde havia uma Santa- Cruz. As pessoas que tèm viajado pelo interior conhecem estas espécies de nichos esparsos aqui e acolá pelo paiz e asylando sempre uma cruz. Algumas destas passam por mi- lagrosas e estão ornadas de relíquias e milagres. Pois bem, os dous negros em um theatro destes entraram a fazer sermões e para logo viram grupar-se em torno de si enorme multidão. Estabeleceram o communismo das mu- lheres e fizeram predicas infamantes. Foi mister a inter- venção armada da policia para desmanchar-se o ajunta- mento. O ultimo phenomeno da espécie que temos de apre- sentar teve um theatro ainda mais vasto. Um individuo cri- minoso fio Ceará sahiua fazer penitencia a seu modo e inau- gurou predicas publicas... No seu percurso veiu ter aos sertões da Bahia e fundou uma igreja em Rainha dos An- jos. Chamava-se António e o povo denominava— o Con- selheiro. Passou por Sergipe, onde fez adeptos.

Pedia esmolas e só acceitava o que suppunha necessá- rio para a sua subsistência, no que divergia de nossos mendigos vulgares. Não tinha doutrina sua e andava mu-

(1) Memoria soòre a Pedra Bonita ou Reino Encantado na Comarca de Villa-Bella, por António A. de Souza Leite, Rio de Janeiro, 1875.

vil

nido de um exemplar das Horas Mariannas, donde tirava a sciencia! Era um missionário a seu geito. Com tão poucos recursos fanatisou as populações que visitou, que o tinham por Sant' Antonw Apparecidol Pregava contra os pentes de chifre e chalés de lã, e as mulheres queimavam estes objec- tos para o satisfazer. A musa popular vibrou a seu respeito exhalou-se e em quadras como estas :

« Do céo veiu uma luz Que Jesus Christo mandou; Sant''Antonio Apparecido Dos castigos nos livrou.

Quem ouvir e não aprender, Quem souber e não ensinar, No dia de Juizo A sua alma penará ! » (1)

As chamadas — Santas-Missões são phenomenos quasi análogos. Além destas superstições, em grosso, por assim, dizer, existem as ordinárias e vulgares, que são de todos os dias. Escreveríamos ura volume inteiro, se fossemos a des- crever as da espécie que temos presenciado. Limitarnos- he-mos a poucas. A propósito de moléstias revelam-se algumas muito interessantes. Quasi todas as doenças para o povo vêm a ser: a. espinhela cahida, o flato e o feitiço.

Curam todas com oenzeduras, ou promessas a santos.

A espinhela cahida ó um incommodo do estômago ou da parte posterior do esternon, que o povo conhece e des- creve, O modo de a curar é sujeitar-se o paciente a que um curandeiro o benza com as seguintes palavras que po- demos obter não sem difficuldade :

« Espinhela cahida.

Portas para o mar ;

Arcas, espinhelas, . *

Em teu logar !. . .

Assim como Christo, Senhor Nosso, andou Pelo mundo, arcas, Espinhelas levantou. »

(1) Suppunhamos já fallecido esse tétrico fanático, quando agora apparece elle nos sertões da Bahia, à frente de um ver. dadeiro exercito de crentes, a fazer depredações de todo o género.

VIII

Fazera-se cruzes nos pulsos, estômago e costellas.

O flato são phenomenos nervosos também curados com rezas. O feitiço é cousa que dizem ^qx feita por alguém.

Para fazer sahir uma espinha da garganta, a reza é esta :

« Homem bom,

Mulher má,

Casa varrida,

Esteira rota ;

Senhor São Braz

Disse a seu moço

Que subisse

Ou que descesse

A espinha do pescoço ».

Para o soluço deve o paciente munir-se de um copo d'agua e perguntar :

Doente : « Que bebo f Curandeiro : « Agua de Christo,

Que é bom p'ra isto».

Três vezes se repete a pergunta e outras tantas a res- posta.

Para o cobreio (cobreiro chama-lhe o povo) estabele- ce-se entre o doente e o benzedor o seguinte dialogo :

« Pedro, que tendes P

— Senhor, cobreiro.

— Pedro, curai.

— Senhor, com que?

— Aguas das fontes, Hervas dos montes ».

Quanto ao mal do baço proviente de sezões, o povo costuma coríar a dureza. O methodo consiste em collocar o doente ura pé sobre uma folha de bananeira ou sobre o capim pá de cjallinha e o curandeiro ir com uma faca marcando a configuração do pé, e perguntando : « O que corto? » Ao que responde o doente : « Baço, dureza, obs- trucção ». Isto, três vezes, findo o que o capim, ou o pe- daço da folha de l)arianeira recortada na forma do pé, é cozido em um brcoe, que é posto ao pescoço do enfermo.

IX

Quando a folha seccar, desapparecerá a dureza. Também acreditara no máo olhado e quebranto. Certas moléstias da cabeça dizem ser o sol, alua ou as estrcllas que entra- ram na cabeça do padecente.

O modo de as medicar é : coUocar uma toalha dobrada sobre o craneo do individuo affectado e sobre a toalha um copo com agua emborcado. A reza que acompanha esta operação, que para nós é uma reminiscência da trepanação prc-historica, segundo a descreve Eroca, é a seguinte : « Jesus Cliristo nasceu, Jesus Christo morreu, Jesus Christo ressuscitou. Se estás três palavras são verdadeiras vos farão sarar desta enfermidade». Segue-se o credo. Re- petem-se três vezes a oração e o credo. Depois se ofe- rece. O offerecimenio é este : « Offereço este benzimento á sagrada paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Christo ». Depois repete-se o Bemdito e o Em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo, três vezes.

Para o veneno da cobra existe o fechamento do corpoy que é uma oração que se traz ao pescoço. Também serve para preservar de faca de ponta e de tiro de bala.

Quando cae um argueiro no olho de alguém reza-se ;

« Corro, corre, cavalleiro, Vai na porta de São Pedro Dizer a Santa Luzia Que me mande seu lencinho Para tirar este argueiro ».

Também existem superstições sobre certos animaes. A coruja é de máo agouro. A esperança e a lavadeira de bom Acreditam no lobishomem, na mula sem cabeça e na mãe d'agua, animaes encantados.

O excremento da vacca é empregado para lavar a roupa e o corpo.

Lembramos este facto por encontrar nelle uma reminis- cência do culto que se dava á vacca e seu excremento na Pérsia e na índia (1).

O do cachorro, chamado /as/nm do campo, emprega- se na cura da variola. E' um outro symptoma do atrazo po- pular.

Quando sobrevêm as terríveis seccas, em alguns pon- tos procuram conjural-as, fazendo procissões e mudando um santo de um lugar para outro.

Também para experimentar se o anno será secco ou

(1) Angelo de Gubevnatis.—Mythologie Zoologique, passim.

chuvoso, costuma-se tirar a prooa de Santa Luzia, que consiste em collocar-se um bocado de sal em uma vazilha, na véspera do dia da santa, era lugar enchuto e coberto.

Se o sal amanhecer molhado, choverá, ao contraria não.

— Conta-se que no Ceará fizeram esta experiência di- ante do naturalista George Gardner, mas o sábio, fazendo observações raeteoreologicas, e chegando a um resultado differente do attestado pela santa, exclamou em seu por- tuguez atravessado : «Non, non, Luzi mentiu.»

Quando alguém perde um objecto, costuma invocar São Campeiro, personagem que não constado calendário, e São Longuinho, patriarcha das cousas perdidas.

A São Campeiro accendem-se velas pelos mattos e campos.

Para São Longuinho, quando se encontra o objecto perdido, grita-se: «Achei, São Longuinho!» Isto três vezes.

Algumas mulheres quando entram n'agua para tomar um bdnho, dizem :

« Nossa Senhora Lavou seu filho P'ra cheirar; Eu me lavo P'ra sarar.»

Acreditam muito em almas do outro mundo, e quando estão comendo, se lhes acontece cahirum bocado no chão, dizem : «qual dos meus estará com fome ?»

Vemos ahi uma reminiscência do culto dos maiores, descripto por H. Spenser (1).

Ao deitarem-se algumas dizem :

« S. Pedro disse missa, Jesus Christo benzeu o altar , Assim benzo minha cama Onde venho me deitar.»

No acto de dar uma mulher á luz, quando faltam ainda as secundinas oa companheiras, como chamam, a parteira, ou assistente, faz repetir pela parturiente:

Principies de Sociologia, passim.

XI

« Minha Santa Margarida, Não estou prenha, nem parida.»

No Ceará ainda se usa, em alguns pontos do centro, uma espécie de velório por morte de crianças, anjinhos, como chamam. Consiste era dar tiros de pistolas e rouquei- ras, e cantar rezas e poesias na occasião de levar para o- cemitério o anjinho.

Existe também em algumas províncias a devoção in- titulada a lamentação das almas. Em certa noite do anno sabem os penitentes, de matracas em punho, a cantar em tom lúgubre composições adequadas. Vão parando de porta em porta sobretudo nas casas de certas velhas a quem querem aterrar.

Nota-se também o costume de vender ou amarrar as sezões, que consistem em benzel-as e depois ir o doente a um pé de larangeira, onde nunca mais deve tornar, dizer :

(( Deus te salve, larangeira. Que te venho visitar ; Venho te pedir uma folha Para nunca mais voltar.»

O elemento feminino é que predomina em tudo isto.

Deixemos este lado curioso, mas sombrio de nosso povo, que é coramum aliás ás nações até as mais cultas, e vejaraol-o expandir-se em suas festas.

E' ainda ás populações ruraes que devemos ir pedir as nossas informações .

Pelo que toca às cidades e grandes villas, suas popu- lações se dividem em duas classes bem accentuadas. A parte mais ou menos culta, que figura no comraercio, nas artes, na politica e nas lettras, e a parte inculta, a immensa cohorte dos capadócios ou cafagestes. E' gente madraça, que, possuindo todos os defeitos dos habitantes do campo, não lhes comparte as virtudes.

As festas populares neste paiz são de duas espécies : as de igreja popularisadas e as exclusivamenle populares. Entre as primeiras destacam-se: a de Nazareth no Pará, das Neves na Parahyba do Norte, do Monte e Saúde em Pernambuco, do Bomflm na Bahia, da Penha no Rio de Janeiro. São festas de oragos, em que o povo toma parte com folganças espcciaes

A' segunda espécie pertencem as festas geraes do Natal, Anno Bom, Reis, S. João, S. Pedro, Espirito Santo,

XII

cora seu cortejo de chibas, sambas, reizados^ chegan- ças, etc.

flestas ultimas é que melhor se aprecia em acção a poesia popular.

As festas àe Natal, Anno Bom, Reis, chamadas janei- ras em Portugal, são as mais alegres e travessas para o nosso povo ; são quinze dias de folgares constantes e va- riados.

No Lagarto cidade da provincia de Sergipe, foi que melhor as estudamos. Os brinquedos mais communs são: o Bumba meu boi, os Marujos, os Mouros, o Cego, etc.

O Bumba meu boi vem a ser um magote de indivi- duos acompanhados de grande multidão, que vão dansar nas casas, trazendo comsigo a figura de um boi, por baixo da qual occulta-se um rapaz dansador.

Pedem, com cânticos, licença aos donos da casa para dançar. Obtida a licença, ajiresenta-se o boi e rompe o coro :

« Olha o boi. Olha o boi que te dá, Ora entra p'ra dentro, Meu boi marruá.

Olha o boi, Olha o boi que te dá, Ora dá no vaqueiro, Meu boi marruá. . .etc.»

O vaqueiro representa sempre a figura de um negro ou de um caboclo, vestido burlescamente, e que é o alvo das chufas e pilhérias populares. A. intenção transparente de debicarem mutuamente assim as duas raças inferiores, preta e vermelha, é um phenomeno curioso.

A folgança dos Marujos representa-se com um bata- lhão de rapazes vestidos á maruja, que conduzem um na- viosinho. Cantam versos variados e fazem evoluções múl- tiplas. Depois de fingir uma lacta, vão coser o panno^ no fim do que ha o episodio do gageiro, cantando-se os versos da Náo Cathcrincta de origem portugueza.

Ainda hoje quem tem o sentimento da poesia popular 6 comprehende o espirito do povo portuguez, como um povo de navegantes, não pôde ouvir aquella canção do gageiro com sua melopéa sentida, sem experimentar al- guma cousa de saudoso e de profundo. E' a vellia alma luzitana transplantada para este paiz, que nos agita as

XIII

fibras do coração. Os oersos e a musica, que sabemos de cór nunca os ouvimos sem agradável coramoção.

No mesmo espirito é tambm a folgança dos Mouros, onde ha uma lucta entre christãos e turcos reminiscência histórica das lactas contra os mouros na peninsula hes- panica.

O começo é ;

«Olhem que grande peleja

Temos nós que pelejar,

Se for o rei da Turquia.

Se não quizer se entregar. . .etc.»

O brinquedo ou auto popular do cego é menos caracte- rístico.

E' todo de implantação portugueza. E' a historia de um conde que se finge cego para raptar uma moçoila.

Esta vai ensinar-lhe o caminho e encontra-se com os companheiros do conde ; é raptada e diz com melancolia:

«Valha-me Deus E Santa Maria, Que eu nunca vi cego De cavallaria. . . etc.»

Tem um certo frescor juvenil e a musica é expres- siva.

Em Pernambuco o auto popular do Cavallo-marinho é o mais apreciado. Damol-o por inteiro no lugar competen- te, Nelle se pode bem estudar a fusão já adiantada em certo ponto dos costumes das tros raças que constituem o grosso de nossa população. Também d'alli transpira certa dureza de costumes, própria dos pernambucanos rústicos, que, com o gosto pela liberdade, é uma das heranças que lhes fica- ram de seu contacto e luctas com os hollandezes.

No Lagarto, em Sergipe, no dia de Reis celebra-se a festa de S. Benedicto e apreciam-se então alli dous folgue- dos especiaes, o dos Congos, que é próprio dos negros, o das Tayêras, feito pelas mulatas.

Os Congos são uns pretos, vestidos de reis e de prin- cipes, armados de espadas, e que fazem uma espécie de guarda de honra a três rainhas pretas.

As rainhas vão no centro, acompanhando a procissão de S. Benedicto e de Nossa Senhora do Rosário, e são pro- tegidas por sua guarda de honra contra dous ou três do

XIV

grupo, que forcejam por lhes tirar as coroas. Tem um premio aquelle que consegue tirar uma coroa, o que é ver- gonha para a rainha: Os da guarda cantam :

« Fogo de terra, Fogo de mar, Que a nossa rainha Nos ha de ajudar, etc.»

% As Tayêras são mulatas, vestidas de branco e enteitadas de fitas, que vão na procissão dansando e cantando com expressão especial e côr toda original. Os versos, onde se conhece a acção burlesca da raça negra, dizem:

í « Meu S. Benedicto

I Não tem mais coroa ;

: Tem uma toalha

Vinda de Lisboa...

Inderê, rê, rê, ré. . .

Ai ! Jesus de Nazareth ! etc.»

A musica é puramente brasileira. Em Pernambuco, pelo Natal, costumam armar as chamadas Lapinhas. São nichos representando o presepe onde nasceu Jesus.

Ha então ahi a funcção das pastorinhas, que são mu- latas ou negras, na primeira fiôr da idade, enfeitadas de capellas e que dansam e cantam, acompanhadas de um negralhão vestido burlescamente, a tocar pandeiro. O co- meço das trovas diz :

« Vinde, pastorinhas, Vinde a Belém, A vêr se é nascido Jesus Nosso bem, etc.

Noutras províncias temos presenciado presepes; mas sem a, funcção das pastorinhas. Para melhor concatenação de idéas, e pela necessidade de só aíBrmar aqnillo que temos visto e estudado de perto, ó que vamos referindo as descripções das festas populares ás localidades, onde as apreciamos. Temos poróm as mais completas provas, no testemunho de pessoas insuspeitas, de que por todas as pro- víncias do Brazil as janeiras foram muito populares e con- corridas.

xr

Em Paraty, na província do Rio de Janeiro, a festa mais celebre é a do Espirito- Santo. Nesta manifesta-se ■ a instituição popular do Imperador da festa. Assim é cha- mado o festeiro, aquelle que faz as despezas da folgança. ; No dia da festividade este individuo é conduzido de i^ sua casa para a igreja entre duas varas enfeitadas que são levadas por algumas pessoas gradas.

Ha um costume análogo em S. Paulo e Matto- Grosso (1).

Cumpre ponderar que nota-se uma apreciável deca- dência em todas as folganças e festividades populares. A tradição as dá muito mais frequentes e animadas ha trinta ou quarenta annos passados.

Não deixam de ter contribuído para isto, além de entras causas, a moderna intolerância dos vigários e o zelo anti-esthetico dos delegados de policia.

Além das duas categorias de festas de que acabamos de fallar, ha uns brinquedos particulares e, por assim dizer. Íntimos do povo. Naquellas elle exhibe-se em publico, nas praças e ruas e anda meio recatado. Nos sambas, chibas, 1 batuques e candomblés é que o povo excede toda expecta- ' tiva.

Vamos vèr despontar o manancial mais fecundo da poesia popular. A viola e o enthusiasmo, o canto e os ardores da paixão, eis a dupla origem da grande torrente, Charaa-se chiba na província do Rio de Janeiro, samba nas do Norte, caterètê na de Minas, fandango nas do Sul uma funcção popular da predilecção dos pardos e mestiços em geral, que consiste em se reunirem damas e cavalhei- ros em uma sala ou n'um alpendre para dansar e cantar. Variadas são as tocatas e as dansas. Ordinariamente po- rém consiste o baile rústico em sentarem-se em bancos á roda da sala os convidados, e, ao som das violas e pan- deiros, pular ura par ao meio do recinto a dansar com ani- mação e requebros singulares o bahiano ou outras varia- ções populares.

O bahiano é dansa e musica ao mesmo tempo. Os figurantes em uma toada certa têm a faculdade do improviso em que fazem maravilhas, e os tocadores de viola vão fazendo o mesmo, variando os tons.

Dados muitos gyros na sala, aquelle par vai dar uma

embigada noutro que se acha sentado e este surge a dansar.

O movimento se anima, e, passados alguns momentos,

rempem as cantigas populares e começam os improvisos

poéticos.

d) Moutinho— Província de Matto-Grosso. passim.

XVI

Ahi se exerce uma força verdadeiramente prodigiosa e os cantos inspirados por motivos de occasião e sempre com vivissima côr local, ou varrem-se para sempre da memoria, ou, decorados e transformados, segundo o en- sejo, vão passando de boccaem bocca, e constituindo esta a abundante corrente de cantos lyricos que esvoaçam por toda exten são do Brasil.

O bahiano é um producto do mestiço ; é uma transfor- mação do maracatú africano, das dansas selvagens e do fado portuguez.

Nas dansas. musicas e poesias populares dão-se tam- bém as leis da selecção natural.

Adaptadas a um novo meio, modificam-se produzindo novos rebentos ou novas vidas. O bahiano é um exem- plo.

E' mestiço de origem, prevalecendo ainda nelle o ele- mento africano, que, por mais que o queiramos esconder, predomina ainda em nossas populações, que se podem cha- mar do terceiro e quarto estado.

Se nas republicas hespanholas o cruzamento mais vasto foi do europèo com o indio, no Brasil foi do branco com o negro, predominando até agora as formas escuras nas classes desfavorecidas.

Feita a estatística real, e não a presumida, da popu- lação brasileira, se ha de notar que o numero de mestiços excedo ao de brancos puros, indios puros e negros puros, e que naquelles a impressão do preto é a mais viva.

O bahiano é uma especialidade brasileira; elle e o oatapâ e o caruru, também implatações africanas trans- formadas, são as três maiores originalidades do Brasil, f A modinha é uma implantação da serranilha, como já oi por vezes demoustrado, e é para nós menos original.

Adaptada a este solo, quando foge no verso e musica dos modelos convencionaes, adquire também um grão pro- nunciado de origininalidade

Chega a este ponto quando ao elemento portuguez aggregam-se os outros, porque o genuino brasileiro, como já dissemos, o nacional por excellencia, não é, como alguns hão aífirmado erroneamente, este ou aquelle dos concur- rentes, mas o resultado de todos, a forma nova produzida pelos três factores.

Outro entejo para apreciar-se a evolução da poesia popular ó observar o povo no seu trabalho.

Estamos de accórdo com Gustavo Freitag, o celebre romancista ailemão '• «mais do que em suas supestições e festas, que são o seu lado excepcional, devemos estudar o povo no seu trabalho, que é a sua face constante e normal.»

I

XVIl

Profundas palavras, que. se fossem meditadas por nossos romancistas, não teriam estes povoado o nosso mundo litterario de creações e typos chimericos, aéreos, nullos. . .

O povo, em verdade, deve de preferencia ser observado na sua laboriosa lucta pela vida.

Elle entião canta e o seu cantar é másculo e sadio.

Entre nós temol-o observado por vezes. Ou nas grandes eitos lavrando a terra, ou deitando raattas ao chão, ou nos engenhos no moer das cannas e na preparação do assucar, sempre a trabalhador vai cantando e improvisando. E' o cantar elogio ou cantar ao desafio, expressões de ai egria usadas em Pernambuco. Em Sergipe chamam arrazoar aocantar versos de improviso. Esta expressão é também significativa. Ha alli. como em outras provindas, onde o trabalho é mal organisado, um original costume : um ro- •ceiro, que tem ura serviço atrazado, roç.igem, plantação ou colheita, convida os vizinhos para o ajudarem a levar avante o eito; accedendo estes, torma-se o que chamam no Rio de Janeiro potirão ou potirum O potirum, ex- pressão africana, dura ás vezes dous e três dias. E' um trabalhar livre e galhofeiro ao som de cantigas. Também o fazem para tapagens de casas, e as mulheres o empregam na, fiagem do algodão.

Trabalha-se, bebe-se e canta-se. Isto é nas populações agrícolas das mattas ; nas criadoras dos sertões observam- se os mesmos costumes cora as indispensáveis alterações.

Os vaqueiros usam do celebre aboiar, e alguns dos nossos romances e xacaras mais orieinaes. como o Boi- Espacio, o Rabicho da Geralda, a Vacca do Burel, tèm €Sta origem.

Os homens da costa e das margens des grandes rios, e que passam parte da vida era canoas, também são um dos órgãos de nossa poesia popular. No remar vão arra- zoando. Tivemos repelidas occaslões de observar e entrar nestes cantos ao desafio, onde embalde procurávamos acompanhar os bardos incultos. Em promptidão de impro- visos éramos sempre ultrapassados por elles.

As adioinhações, dtctados, folguedos de crianças, e saúdes são outras formulas da sabedoria e poesia popular. Os folguedos de criança e saúdes foram por nós descriptos €m nosso livro Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira para oride enviamos o leitor. Quanto aos dictados e adoi- nhações daremos aqui alguns espécimens mais vulgares.

Dictados: (( Quem nasceu p'ra dez réis nunca chega a vintém. De hora era hora Deus melhora... Quem tem dó

CANTOS 2

XVIII

de o/ipá não amarra cachorro... Quem quer pegar galli- nha não diz chô. . . Quem planta e cria, tem alegria. . . Lua nova trovejada trinta dias de molhada... Em Abril aguas mil. . . Fazer bem não cates a quem. . . Onde me conhecem honras me dão. onde não me cenheccm me darão, ou não... Os bens do sacristão cantando vem, chorando vão. . . Deus quando tarda, vem no caminho... Agua molle em pedra dura tanto dá até que fura... Macaco velho não mette a mão em combuca. . .»

E' evidente a origem portugueza de alguns e a trans- formação mestiça de outros.

Adtoinhações : assim chamam-se ximas espécies de charadas propostas para se lhes descobrir o sentido. Exemplo :

« Caixinha de bem querer, todos os carapinas não sa- bem fazer.» E' o amendoim, ou raandubim, como chama-o o povo. « Casa caiada, lagoa d'agua.)> E' um ovo. « Campo branco, sementinhas pretas.» E' uma carta. «Branco e não é papel, verde e não é mar, vermelho e não é sangue, preto e não é carvão. « A melanci i, ou balancia, como diz a plebe. « Branquinho, branquinho, reviradinho-» O beijú ou bijú. « Graças brancas em campos verdes, com o bico n'agua, morrendo á sede.» E' um navio.

Ha algumas muito expressivas e engraçadas ; outras em estylo picaresco, que o povo muito aprecia.

Nossas populações têm, como é natural, ainda uma larga porta aberta para o maravilhoso. Nos tempos coloniaes a Bahia, a antiga capital, a sede do governo, era uma espécie de ponto de aventuras. Ainda hoje para as populações rús- ticas das provincias circumvizinhas a cidade suprema ea suprema longitude é a Bahia, No brinquedo do annel se diz : « Qando eu fui para a Bahia, a quem deixei meu annel? »

Nas poesias e contos populares falla-se muitas veçes na Bahia. Existem além d'isso certas localidades a que se prendem lendas próprias. Em todas as provincias repete-se o caso. Em Sergipe as serras da Itabayana, a da Miaba e a Furna de Simão Dias são a sede de riquezas phantasticas.

Na de Itabayana apparece, ás vezes, diz a lenda, um carneirinho de ouro, e na da Miaba um caboclinho de prata. Na Furna de Simão Dios, subterrâneo próximo á villa deste nome, dão-se cisagens e encantamentos espe- ciaes. No Ceará o Boqueirão das Lavras da Mangabeira e a Serra do Araripe contém riquezas prodigiosas e legen- das análogas. E assim por todo o Brasil.

Por outro lado, ainda o nosso povo tem costumes san- Kainarios, como todas as gentes educadas sob o regimem

XIX

militar e que começam apenas a suavisar-se. Os assassina- tos repetem-se ainda em larga escala.

No tempo da Regência o bacamarte fez proezas em quasi todas as províncias, maxime nas de Pernambuco, Ceará, Maranhão, Piauhy e Bahia, onde reinavam chefes déspotas, ridícula e ferozmente estúpidos.

Em Sergipe o facto era também uma verdade. Diz uma testemunha occular : «Então a província, além da banca- TOtaque haviam feito os cofres públicos, era ainda marty- risada pelos assassinatos com tanta immoralidade, que os assassinos cruzavam os povoados, villas e cidades, deci- dindo da sorte de seus habitantes, por tal forma, que o povo ironicamente os denominava — chefes de policia^ (1).

Raros eram por toda parte os fazendeiros e senhores ,de engenho que não tinham os seus guarda-costas e capan- gas, que serviam para assassinatos e para pleitear elei- ções.

Os capoeiras, que ainda hoje existem nas maiores ci- dades, sobretudo na do Rio da Janeiro, consta serem uma espécie de instituição politica, sob as ordens de grandes magnatas.

Com elles é que se veda o ingresso dos adversários nos comícios em dias de eleições e obtem-se a victoria das urnas.

São uma troça ambulante dividida em diversas maltas nas differentes freguezías da capital. Cada malta tem seu chefe, que obedece por sua vez a um chefe geral. Os capo- eiras usam de navalhas como armas e sabem um jogo de pulos, pontapés e cabeçadas todo original. Um bon capoeira bate dez homens.

O paiz, apezar de algumas instituições democráticas, ainda conserva fundas distincções sociaes.

No tempo da independência subsistiam e ainda eram convocados os três estados.

, Em 1821 em Sergipe o governador da capitania, César Burlamaqui, recebendo uma intimação do governador da Bahia para acclamar alli a constituição, mandou convocar uma reunião do clero, nobreza e pooo.

« A noboeza, diz uma testemunha verídica, era repre- sentada pela camará e por todas as pessoas que haviam servido os cargos da governança das villas e cidades, como fossem juizes, vereadores, officiaes das ordenanças e de se-

flj Apontamentos históricos e topographicos de Sergipe, por J. da Silva Travassos, pag. 56.

XX

gunda linha, e o povo era representado pelos homens bons e abastados que não pertenciam áquella hierarchia.« (1)

Não tínhamos, nem temos, como se vê, uma aristocra- cia histórica e de direitos adquiridos ; mas ia ella sendo criada aos poucos e viciadamente.

O clero goza ainda de direitos privilegiados, e o povo propriamente dito, espécie defellahs do Egipto, é tratado como um animal de carga.

Anda assim, a despeito de todos os nossos males e defeitos, existe entre nós uma mole immensa de poesias populares. Predominam os cantos lyricos, como acontece na Itália moderna,

Apenas mais uma consideração para concluir esta synthese.

As canções lyricas que colligimos são anonymas. A par destas existe a poesia bardica popularisada, maximé politica. São canções que têm origem individual, mas de que as massas se apossaram. No numero d'ellas contam-se as celebres modinhas,iãiO apreciadas pelos europeus. Não as colligimos por estarem fora do nosso plano. Alguns portu- gue/es, que de nossa poesia popular só conhecem as modi- nhas, que não são em rigor de origem anonyma, dizem que por meio delias este paiz, quando colónia, chegou a influir ua litteratura da metrópole.

O facto parece exaggerado, porquanto no século pas- sado, época a que se referem os críticos portuguezes, ao passo que nossa litteratura approximava-se da natureza com Dirceu, Basílio e Durão e com as modinhas, a littera- tura da metrópole era toda postiça e contrafeita. Os ouvi- dos luzitanos foram surdos á lição dada por nossos poetas, verdadeiros precursores do romantismo nas raças neo- latínas, e que eram tidos por bárbaros para aquelles pre- tindidos civílisados e o nosso influxo benéfico deixou de eer uma realidade. Ao contrario, soff^remos nós outros a mpressão deletéria das lettras portuguezas da época.

(1) Travassos.— Apontamentos, pag. 24.

CANTOS POPULARES DO BRASIL

PRIMEIRA SERIE

ROMANCES E XACA.RAS

Origens : do portuguez e do mestiço ; transformações pelo mestiço

Dona Inrantsi

(Rio d,e Janeiro)

Estava Dona infanta No jardim a passear; Com o pente d'ouro na mão Seu cabello penteava ; Lançava os olhos no mar, lí'elle vinha uma armada. Capitão que n'ella vinha Muito bem a governava.

«O amor que Deus me deu, Não virá na vossa armada ?

— Não o vi, nem o conheço, Nem a sina que levava.

«Ia n'um cavallo d'ouro Com sua espada dourada. Na ponta de sua lança Um Christo d'ouro levava.

— Por signaes que vós me destes Lá ficou morto na guerra , Debaixo d'uma oliveira

Sete facadas lhe dera. «Quando fordes e vierdes Chamai-me triste viuva, Qu'eu aqui me considero — A mais infeliz sem ventura.

Quanto me dareis, senhora, Si vos eu trouxel-o aqui ? «O meu ouro e minha prata, Que não tem conta nem fim.

CANTOS POPULARES DO BRASIL

— Eu não quero a tua prata, Que me não pertence a mim ; Sou soldado, sirvo ao rei,

E não posso estar aqui. Quanto me dareis, senhora, Si vol-o trouxer aqui ? «As telhas de meu telhado Que são de ouro e marfim.

— Eu não quero as tuas telhas, Que me não pertence a mim ; Sou soldado, sirvo ao rei,

E não posso estar aqui.

Quanto me dareis, senhora,

Si vol-o trouxer aqui ?

«Três filhas que Deus me deu

Todas te darei a ti,

Uma para te calçar.

Outra para te vestir,

A mais linda d'ella8 todas

Para comtigo casar.

— Eu não quero tuas filhas, Que me não pertence' a mim; Sou soldado, sirvo ao rei,

E não posso estar aqui. Quanto me dareis, senhora. Si vos eu trouxel-o aqui ? «Nada tenho que vos dar E vós nada que pedir.

— Muito tendes que me dar, Eu muito que vos pedir : Teu corpinho delicado Para commigo dormir.

«Cavalleiro que tal pede Merece fazor-se assim : No rabo de meu cavallo Puxal-o no meu jardim !

ROMANCES E XACARAS

Vinde, todos meus criados, Vindo fazer isto assim,

— Eu não temo os teus criados, Teus criados são de mim.

«Si tu eras meu marido, Porque zambavas de mim ?

— Para vêr a lealdade Que você me tinha a mim.

A noiv£i roubada

(Rio de Janeiro)

— Peus vos salve, minha tia. Na sua roca a fiar !

«Si tu és o meu sobrinho, Três signaes has de me dar.

— Qu'éd'êl o meu cavallo Qu'eu aqui deixei ficar ? «O teu cavallo, sobrinho, Está no campo a pastar.

— Quéd'el-a minha espada Qu'eu aqui deixei ficar? «A tua espada, sobrinho. Está na guerra a batalhar.

— Qu'éd'el-a minha noiva Qu'eu aqui deixei ficar ? «A tua, noiva sobrinho, Está na igreja a se casar.

— Selle, selle o meu cavallo Qu'eu quero ir até lá ;

Eu andei por muitas terras Sempre aprendi a fallar.

CANTOS POPULARES DO BRASIL

— Deus vos salve, senhora noiva, N'e8te seu rico jantar.

«Si é servido da boda, Apeie-se e venha manjar.

— Eu não quero a sua boda, Nem também o seu jantar. Só quero fallar com a noiva Um certo particular.

O Bernal Francez

(Rio de Janeiro)

« Quem bate na minha porta, Quem bate, quem está ahi ? — E' Dom Bernaldo Francez, A sua porta mande abrir.

No descer da minha cama Me cahiu o meu chapim ; No abrir da minha porta Apagou-se o meu candil. Eu levei-lhe pelas mãos, Levei-o no meu jardim ; Me puz a lavar a elle Com agua de alecrim ; E eu como mais formosa Na agua de Alexandria. Eu lhe truxe pelas mãos, Levei-o na minha cama. Meia noite estava dando. Era Dom Bernaldo Francez ; Nem sonava, nem movia, Nem se virava p'ra mim. « O que tendes, D. Bernaldo, O que tendes, que maginas?

ROMANCES E XACARAS

Si temes de meus irmãos, Elles estão longe de ti; Si temes de minha mãi, Ella não faz mal a ti ; Si temes de meu marido, Elle está na guerra civil.

— Não temo de teus irmãos, Qu'elle8 meus cunhados são ; Não temo de tua mãi, Qu'ella minha sogra é ; Não temo do teu marido, Qu'elle está a par comtigo.

« Matai-me, marido, matai-me, Qu'eu a morte mereci ; Si tu eras meu marido Não me davas a conhecer.

— Amanhã de p'ra minha Eu te darei que vestir ; Te darei saia de ganga, Sapato de berbotim , Trago-te punhal de curo Para te tirar a vida...

O tumulo qne a levava Era de ouro e marfim ; As tochas que acompanhavam Eram cento e onze mil, Não fallando de outras tantas Que ficou atraz p'ra vir. « Aonde vai, cavalleiro. Tão apressado no andar?

— Eu vou ver a minha dama Que já ha dias não a vejo.

« Volta, volta, cavalleiro, Que a tua dama já é morta, E' bem morta que eu bem vi, Si não quereis acreditar Vai na capella de São Gil. « Abre-te, terra sagrada,

CANTOS POPULARES DO BRASIL

Quero me lançar em ti.

« Pára, pára, Dom Bernaldo,

For mode ti já morri. »

— Mas cu quero ser frade Da capella de São Gil ; As missas que eu disser Todas serão para ti. « Não quero missas, Bernaldo, Que são fogo para mim : Nas filhas que vós tiver Botai nome como a mim ; Nos filhos que vós tiver Botai nome como a ti.

D. Duarte e D. Donzilha

(Sergipe)

« Eu não procuro igreja, Nem rosário pr'a rezar; Só procuro o lugar Onde Dom Duarte está. « Deus vos salve, rainha, Eainha em seu lugar. » — Deus vos salve, princeza, Princeza de Portugal. »

— O que me quereis, princeza, Que novas quereis me dar ?

E' o amor de Dom Duarte Que inda espero lograr.

— Dom Duarte não está em casa, Anda n'alçada real.

« Mandai levantar bandeira Para dar um bom signal.

ROMA.NCES E XACARAS

Palavras não eram ditas Dom Duarte na porta estava :

— O que me quereis, princeza, Que novas quereis me dar ?

« E' o amor de Dom Duarte QuMnda espero lograr.

— No tempo que eu vos queria, Me juravam a matar ;

Mas hoje que sou casado Tenho filhos a criar.

— Dai-me licença, senhora,

— Dai-me licença real

P'ra dar um beijo em Donzilha Qu'ella finada já está. « Dai-lhe quatro, dai-lhe cinco, Dai-lhe quantos vós poder; Não tendes mais que beijar A quem já finada está.

A cova de Donzilha Foi na porta principal; A cova de Dom Duarte Foi lá no pé do altar. Na cova de Donzilha Foi um pé de sicwpiraiX) ; Na cova de Dom Duarte Nasceu um pé de collar. Foram crescendo, crescendo, Cresciam ambos igual ; Lá em riba das galhinhas Lá se foram abraçar. A viuva que viu isto, Logo mandou decotar ; Si haviam brotar leite, Brotaram sangue real.

i Ou sucopira, Bowdichia major

10 CANTOS POPULARES DO BRASIL

D. lHarifi e D. i%.rico

(Rio de Janeiro^

— O que é isto que aqui está No pino da meia noite ?

Si tu és alma em pena

Kemedio te quero dar,

Si és cousa d'outro mundo

Quero-te desconjurar.

« Eu não sou alma em pena

Para vós remédio me dar,

Nem sou cousa d'outro mundo

Para vós me desconjurar.

Lá de traz d'aquella esquina

Estão sete a vos esperar.

— Pelos sete que lá estão Meu pé atraz não voltaria, Dom Arico ha de cear Em casa de Dona Maria. Não jogo jogo de bala Qu'é jogo de covardia, Jogo com jogo de espada Qu'é jogo de valentia. Dom Arico matou seis ; Ficou um por mais somenos, D'elle conta não fazia.

Este atirou-lhe uma bala Da mais alta que havia, A bala cahiu no peito E o peito lhe feria. Dom Arico foi cahir Na porta de Dona Maria; Pelos ais e os gemidos Acordava quem dormia.

— O que não dirão agora ? Que mataram esto coitado, Que morreu de mal de amores,

ROMANCES E XACARAS H

Que é um mal desesperado 1 Si me acharem aqui morto Não me enterrem no sagrado ; Me enterrem em campo de rosas Das quaes eu fui namorado. Trazei papel, trazei tinta, Trazei vossa escrevaninha, Eu quero escrever saudades No vosso peito, Maria.

O Conde Alberto

(Sergipe)

Soluçava Dona Sylvana Por um corredor que tinha, Que seu pai não a casava, Nem esta conta fazia.

— Eu não vejo n'e8te reino Com quem case filha minha ; Só si fòr com Conde Alberto (1). Este tem mulher e filhos.

« Com este mesmo é que eu quero, Com este mesmo eu queria : Mandai vós, ó pai, chamal-o Para vossa mesa um dia.

— Corre, corre, cavaleiro Dos mais ligeiros que tenho, Vai dizer ao Conde Alberto Que venha jantar commigo.»

— « Inda hontem vim da corte Que Dom Eei me fez chamar;

1 Outros dizem Conde Olario.

12 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Não sei será p'ra bem, Ou si será p'ra meu mal.

— P'ra matares a Condessa, E casar com minha filha.»

— « Como isto pode ser, Como isto nunca seria? Descasar um bem casado Cousa que Deus não faria ?

— Instantes te dou de hora Que reze uma Ave-Maria, Que me mandes a cabeça N'esta formosa bacia.

— Contaes, marido, tristezas, Como quem conta alegria !»

— « Não sei que vá vos contar Que já é em demasia ». A mesa já estava posta, Nem um, nem outro comia ; As lagrimas eram tantas, Que pela mesa corria (1).

D. C£irlos de lHontealbar

(Sergipe)

«Deus vos salve, senhor Dom Carlos ;

O senhor que fazia lá ?

— Me arrumando, senhora,

Para comtigo brincar.

Segue-se a despedida da Condessa aos filhos e a moríe da Infanta; a tradição não dá couta do resto do romance.

ROMANCES E XACARAS 13

Quando estavam a brincar, Ura cavalleiro vêm passar ; Dom Carlos como ardiloso Logo quiz o degolar.

— «Não me mate o cavalleiro, Qu'é do reino de meu pai. «Cavalleiro, o que aqui viste A meu pai não vai contar, Qu'eu te darei ouro e prata Quanto possas carregar.

— «Eu não quero ouro e prata Que a senhora não m'os dá ; Brinquedos que vi aqui

A meu rei irei contar. «Cavalleiro, o que aqui viste A meu pai não vai contar, Qu'eu te darei minha sobrinha Para comtigo casar.

— «Não quero sua sobrinha Que a senhora não m'a dá; Folguedos que vi aqui

A meu rei irei contar. «Cavalleiro, o que aqui viste A meu pai não vai contar. Te darei o meu palácio Com todo o meu cabedal,

— «Não quero o seu cabedal. Que a senhora não m'o dá, Que isto que eu vou contar Muito mais me ganhará.

— «Novas vos trago, senhor, Novas eu vos quero dar; Eu topei a Claraninha Com Dom Carlos a brincar ; Da cintura para riba (1)

(1) Para cima.

CANTOS

14 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Muitos beijos eu vi dar; Da cintura para baixo Não vos posso mais contar.

— Si me contasses occulto, Meu reino te haverá (1) dar, Como contaste de publico, Mandarei -te degolar, Vão-me buscar a Dom Carlos, Depressa, não devagar; Carregado bera de ferros

Que não possa me fallar.

— Yão buscar meu tio bispo, Qu'eu me quero confessar Antes que chegue a bora Que me venham degolar.

— «Deus vos salve, meu sobrinho, Qu'em sua prisão está ;

Por amor de Claraninha Lá te vão a te matar; Toda a vida eu te disse Que tu deixasses de amar ; Claraninha era impedida, Poderiam te matar.

— Sáia-se d'aqui, meu tio. Não me venha a enfadar; Mais vai eu morrer por ella Do que deixal-a do amar. Chiquitinho, Chiquitinho, Que sempre mo íoi leal, Vai dizer á Claraninha Que já mo vão mo matar ; Si meus olhos vir os d'ella Minha alma se salvará.

— «Deus vos salve, Claraninha, Que no sou estrado está ;

(1) Por houvera.

ROMANCES E XACARAS 15

Dom Carlos manda dizer

Que já vai se degolar,

«Criadas, minhas criadas.

Si quereis me acompanhar,

Eu já me vou nom o cabcllo

Faltando por entrançar.

Justiça, minha justiça,

Minha justiça real,

Por aquelle que está alli

Minha vida eu irei dar.

Deus vos salve, senhor Dom Carlos,

Não se dê a desmaiar;

Si a minha alma se perder,

A sua se salvará,

— Conselheiros, conselheiros, Que conselhos quereis dar: Qu'eu mate senhor Dom Carlos, Ou que os mandarei casar?

— O conselho que vos damos E' para os mandar casar,

E pegai este arengueiro E mandai-o degolar, «Aren^eiro, embusteiro, O que ganhaste em contar ?

— «Canhei a forca, senhora ; D'ella vinde-me tirar.

«Si eu quizera, bem pudera, Pois nas minhas mãos está ; Para te servir de emenda Mandarei te degolar.

16 CANTOS POPULARES DO BRASIL

I>. Carlos de JHontealbar

(Versão de Pajehú-de-Flores)

«Linda cara tem o conde Para commigo brincar.

— Mais linda tendes, senhora, Para commigo casar.

Veiu o caçador e disse :

— «A el-rei irei contar Que apanhei a Claralinda Com Dom Carlos a brincar.

«Vem cá, meu caçador, Caçadorzinho real, Darei-te villas de França Que não possas governar, Darei-te prima carnal Para comtigo casar.

— «Não quero villas de França, Nem sua prima carnal ;

Com ella não hei de casar ; A el-rei irei contar. Mais tem elle que me dar: Apanhei a Claralinda Com Dom Carlos a brincar. De abraços e boquinhas Não podiam desgarrar. Da cintura para baixo Não tenho que lhe contar.

— Si me dissesses occulto, Posto te havia do dar, Como dissestes ao publico Vai-te já a degolar.

Ido guardas já prender Dom Carlos de Montealbar, Do mulas acavalgadas Quo lhe pesem ura quintal j

ROMANCES E XACARAS 17

Dizei a seu tio bispo Que o venha confessar.

— «Deus vos salve, Cjaralinda, Eainha de Portugal,

Dom Carlos manda dizer Que o saias á mirar. Inda que a alma d'elle pene A sua não penara.

— Levanta-te, Claralinda, Eainha de Portugal,

Ide defender Dom Carlos Para não ir a enforcar. «Que ganhaste, mexeriqueiro, A meu pai em ir contar?

— «Ganhei a forca, senhora, D'ella me queira livrar.

O. Branca

(Sergipe)

— O que tens, ó Dona Branca, Que de côr estás mudada ? «Agua fria, senhor pai.

Que bebo de madrugada.

— Juro por esta espada, Affirmo por meu punhal, Que antes dos nove mezes Dona Branca vai queimada. «Eu não sinto do morrer, Nem também de me queimar, Sinto por esta criança

Que é de sangue real.

18 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Si eu tivera o meu criado, Que fora ao meu mandado, Escreveria uma carta A Dom Duarte de Montealbar.»

— «Fazei a carta, senhora, Que eu serei o mensageiro ; Viagem de quinze dias Faço n'uma Ave-Maria.

Escreve, escreve, senhora, Que eu serei o teu criado ; Viagem de quinze dias, !No jantar serei chegado. « Abre, abre crystallina Janella de Portugal, Quero entregar esta carta A Dom Duarte de Montealbar.

Dom Duarte, que leu a carta Logo se pôz a chorar. Dando saltinhos em terra, Como baleia no mar.

Dom Duarte se finge frade P'ra princeza confessar Lá no sexto mandamento Um beijo nella quiz dar.

« Bocea que Duarte beijava Não é pr'a frade beijar !

N'Í8to então se descobria E com ella já fugia, E para a boda a levou.

ROMANCES E XACARAS 19

O casamento mallogrado

(Sergipe)

Estava em minha janella Casada cora oito dias, Entrou uma pombinha branca Não sei que novas trazia.

« São novas ruins de chorar; Teu marido está doente Nas terras de Portugal ; Cahiu de um cavullo branco No meio de um areial, Arrebentou-se por dentro, Corre o risco de finar.

A IVau Catherineta

(Sergipe)

Faz vinte e um annos e um dia Que andamos ii'ondas do mar, Botando solas de molho Para de noite jantar.

A sola era tão dura,

Que a não pudemos tragar,

Foi-se vendo pela sorte

Quem se havia de matar,

Logo foi cahir a sorte

No capitão-general.

« Sobe, sobe, meu gageiro,

Meu gageirinho real,

Vê se vês terras de Hespanha,

Areias de Portugal.

20 CANTOS POPULARES DO BRASIL

— Não vejo terras de Hespanha, Areias de Portugal,

Vejo sete espadas nuas Todas para te matar. Ariba, ariba, gageiro, A'quelle tope real, Olha p'ra estrella do norte Pára poder nos guiar.

— Alvistas (1), meu capitão, Alvistas, meu general, Avisto terras de Hespanha, Areias de Portugal. Também avistei três moças Debaixo d'um parreiral, Duas cosendo setim. Outra calçando o dedal.

<r Todas três são filhas minhas, Ai ! quem m'a8 dera abraçar ! A mais bonita de todas Para comtigo casar.

— Eu não quero sua filha Que lhe custou a crear. Quero a JSÍau Catherineta Para n'ella navegar.

<i Tenho meu eavallo branco, Como não ha outro igual ; Darte-lo-hei de presente Para n-elle passear.

— Eu não quero seu eavallo Que lhe custou a criar ; Quero a náo Catharineta Para n'ella navegar.

c Tenho meu palácio nobre, Como não ha outro assim, Com suas telhas de prata. Suas portas de marfim.

(1) Al viçaras*.

ROMANCES E XACARAS 21

— Eu não quero seu palácio Tão caro de edifirar, Quero a náo Catharineta Para n'ella navegar.

« A náo Cath'rineta, amigo, E' d'ElRei de Portugal, Mas não serei mais ninguém, Ou El-Eev te ha de dar.

« Desce, desce, meu gageiro, Meu gaigeirinho real, Já viste., terras de Hespanha, Areias de Portuíjal,..

JL riíau Catharineta

(Versão do Rio Grande do Sul)

Vem a Nau Catharineta^ Já farta de navegar : Sete annos e mais um dia Andou nas ondas do mar. Não tinham mais que comer. Nem tão pouco que manjar ; Botaram solas de molho, P'ra no domingo jantar ; A sola era tão dura Que não podiam tragar ; Botaram sortes em branco Ao qual havia tocar, A sorte cahiu era preto No capitão-general ; A maruja era tão boa Que o não queria matar.

22 CANTOS POPULARES DO BRASIL

« Sobe, sobe, oh ! Chiquito, N'aquelle tope real, Tê 66 vês terras de Hespanha.. Areias de Portugal.

— Não vejo terras de Hespanha, Areias de Portugal,

Vejo só a três espadas

P'ra comtigo batalhar.

« Sobe, sobe alli, marujo,

N'aquelle tope real ;

Yê se vês terras de Hespanha,

Areias de Portugal.

— Alviçaras, meu capitão, Alviçaras vos quero dar : Já vejo terras de Hespanha, Areias de Portugal ; Também vejo três meninas Debaixo de um laranjal.

« Todas três são minhas filhas, Todas três te dera a ti : Uma para te lavar, Outra para te engommar, A mais bonita d'ella8 todas, Para comtigo casar.

Palavras não eram ditas, Chiquito cahiu no mar.

ROMANCES E XACARAS 23

Iria — Sk Fidalga

(Rio de Janeiro)

Estava sentada Na minha costura Passou ura cavalleiro, Pedindo pousada. Se meu pai não dera Muito me pezara. E botou-se a mesa Para o de jantar ; Muita comedia, Pratas lavradas ; E se fez a cama Com lençoes de renda, Cobertas bordadas. La p'ra meia noite Elle alevantou-se, Ninguém achou, Só a mira levou. A cabo de sete léguas Elle me perguntou : Na minha terra, Como me chamava ? « Na minha terra Iria — a fidalga, Na terra estranha Iria — a coitada. Minha Santa Iria, Meu amor primeiro... A vós degolaram Que nem um carneiro».

24 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Flor d o Dia

(Versão do Recife)

« Alevanta, amor, D'e8se bom dormir, Chame sua mãi Para me acudir.

Levantou-se elle Sem mais descanço, Foi sellando logo Seu cavallo branco.

— Deus vos salve, mãe, No vosso estrado.

— « Deus vos salve, filho, Ho vosso cavallo.

Apêa p'ra baixo Jantar um bocado.

— Não quero jantar, Que vim a chamado. Que a Flor do Dia Lá ficou de parto.

— « De mim para ella Um filho varão,

De espora no pé, E espada na mão, flebente por dentro Pelo coração.

— Flor do Dia Faça por parir, Minha mãi está doente E não pôde vir.

« Alevanta, amor, D'es8e bom dormir. Chame minha mãi Para mo acudir,

ROMANCES E XACARAS 25

Que ella mora longe, Mas sempre ha de vir. Grande dòr, marido, É dôr de parir !

— Deus vos salve, sogra, No vosso estrado.

— Deus vos salve, genro, No vosso eavallo.

Apèa p'ra baixo Jantar um bocado.

— Não quero jantar, Que vim a chamado, Que a Flor do Dia Lá ficou de parto.

— De mim para ella : Um filho estimado, Que eu veja no throno Um bispo formado Espera lá, meu genro, Deixa-me vestir.

Que ella mora longe, Mas sempre hei de ir.

— Pastor de ovelhas, Que signal é aquelle, Que está dobrando ?

— ({ E' Dona Estrangeira Que morreu de parto. Sem haver parteira.

— Aquelle sino

Não cessa de dobrar^ Nem meus olhos Também de chorar. Adeus, minha filha Do meu coração, Que morreu de parto Sem minha benção. Adeus, minha filha. Que eu vinha te vêr, Quem não tem fortuna Mais vai não nascer.

26 CANTOS POPULARES DO BRASIL

A. I*astoriiiha

(Sergipe)

— Bella Pastorinha, Que fazeis aqui ?

« Pastorando o gado Qu'eu aqui perdi.

— Tão gentil menina Pastorando gado ? !

« Já nasci, senhor, Para este fado.

— Vamos cá, menina, P'ra aquelle deserto, Qu'eu pouco me importa Que o gado se perca.

« Sae d'aqui, senhor, Não me dê tormento ; Eu não quero vêl-o Nem por pensamento.

Olhe, meu senhor. Cá volte, correndo, Que o amor é fogo, Que me vai vencendo. Olhem para elle Como vem galante, Com meias de seda. Calção do brilhante I Si 08 manos vierem Trazer a merenda ?

— Elles não são bichos Que a nós offonda, « E si perguntarem Em quo mo occupava ?

ROMANXES E XA CARAS 27

— N'uma manga d'agua Que a todos molhava.

« Bem sei que tu queres : Que te dê um abraço ; E' á sombra do matto, Mas isto eu não íaço.

— Eu me sento aqui Não com má tenção ; Juro-te, menina, Que sou teu irmão.

« Sae por um monte, Qu'eu saio por outro, A ajuntar o gado Que é nosso todo.

Florioso

(Sergipe)

— Entre pedras e peneiras, Senhora, vamos a ver ; Menina que estaes na fente, Dai-me agua para beber.

« Com licença do Senhor, E da Senhora da Guia, Dizei-me, senhor mancebo, Se vindes da companhia?

— A companhia que trago Já vos digo na verdade; Venho divertir o tempo, Que é cousa da mocidade.

28 CANTOS POPULARES DO BRASIL

« E' cousa da mocidade, Bem já me parece ser ; Dizei-rae, senhor mancebo, Se sabeis ler e escrever?

— Eu não sei ler e escrever, Nem mesmo tocar viola ; Agora quero aprender

Na vossa real escola...

«Escola tenho eu de minha, Nange p'ra negro aprender ; Juízo te dê Deus, Memoria para saber.

— N'estas mimosas esquinas Faz-se ausência muito mal ; Eu sempre pensei, senhora, Que vós me queríeis mal.

« Quanto a mim, eu não te quero

N'alma, nem no coração ;

Até só te poço, negro.

Que não me toques na mão.

— Nas mãos eu não vos toco, Nem mesmo bulo comvosco; Quero estar a par de vós, Pois eu n'isto levo gosto.

« Se tu nMsto levas gosto, Desgostas por vida tua ; Quo esta cara que aqui está E' de outro e não é tua.

— Se é de outro e não é minha Inda espero que ha do ser ; Menina, diga a seu pai

Quo mo mande receber.

ROMANCES E XACARAS 29

« Taes palavras eu não digo Que inda sou muito escusada, Pois eu sou menina e moça, Não sou para ser casada.

— Inda raais moças que vós Regera casa e têm marido , Assim ha-de ser, menina, Quando casardes commigo.

« Mas eu não hei-de casar, Porque não hei-de querer; Eu não me metto a perigos. Quando vejo anoitecer...

— Nem eu quero cousa á força, Sinão por muita vontade.

Eu quero gozar a vida

Que é cousa da mocidade. —

« D'onde vera o Florioso Das melendias penteadas ? (1)

— Eu venho ser o vaqueiro Das ovelhas mais das cabras.

« D'este mesrao gado eu cuido Da mais fina geração .

— D'aquelle que veste luvas De cinco dedos na mão.

« Já fui contar as estrellas,

— Eu já sei que estou no caso. « Eu sei agora, mancebo,

Que tu só és o diabo...

(1} Melendias por melenas,

CANTOS

30 CANTOS POPULARES DO BRASIL

— O diabo eu não sou , Ai! Jesus que feio nome! Só peço ao Senhor da Cruz Que este diabo vos tome. »

O cego

(Sergipe)

— Sou um pobre cego, Que ando sósinho, Pedindo uma esmola Sem errar o caminho.

Aqui está um cego, Pedindo uma esmola, Devotos de Deus E de Nossa Senhora.

« Minha mãi, acorde Do seu bom dormir, Que aqui está um cego A cantar e a pedir.

_ « Se elle canta e pede, Dá-lhe pão e vinho, Para o pobre cégo Seguir seu caminho.

Não quero seu pão,

Nem também seu vinho ; Só qtiero que Anninha JMo ensino o caminho.

ROMANCES E XACARAS 31

— « Anna, larga á roca, E também o linho ; Yae com o pobre cego, Lh'ensina o caminho,

« Já larguei a roca E também o linho ; Já me vou com o cego Ensinar o caminho.

O caminho ahi vai Mui bem direitinho, Se fique ahi, Vou fiar meu linho.

— Caminha, menina, Mais um bocadinho ; Sou cego da vista, Não vejo o caminho.

« Caminhe, senhor cego, Que isto é bem tardar ; Quero ir-me embora. Quero ir-me deitar.

— Aperta as passadas

Mais um bocadinho , \

Sou cego da vista, Não vejo o caminho.

« Adeus, minha casa, Adeus, minha terra Adeus, minha mãi, Qne tão falsa me era,

— Adeus, minha pátria, Adeus, gente boa ; Adeus, minha mãi

Que me vou á tôa.

« Valha-me Deus E Santa Maria, Qu'eu nunca vi cego De cavallaria.

32 CANTOS POPULARES DO BRASIL

— Se eu me fiz cego Foi porque queria; Sou filho de conde, Tenho bizarria.

Cala-te, menina, Deixa de chorar; Tu inda não sabes O que vaes gozar.

— « Deus lhe dê bons dias', Senhora visinha,

Esta meia noite Me íugiu Anninha.

« — Deus lhe dê os mesmos I De cara mui feia, Três filhas que tenho Vou pôl-as na peia.

X.acarei cio Cego

(Ceará)

— Sinhá da casa, Vonha vêr seu pobre ; Nem por vir pedir Deixo de ser nobre,

« Não pôde ser nobre Quem vem cá pedir; Não ha que lhe dar, Já podo seguir.

ROMANCES E XACARA^ 33

— Não useis commigo Tanta ingratidão, D'e8te pobre cego Tende compaixão.

« Eu não sou dona, Nem governo nada , A dona da casa Ainda está deitada.

— Se está deitada Ide-a chamar ;

Que o pobre do cego Lhe quer fallar.

«Acordai, senhora, Do doce dormir; Vinde vêr o cego Cantar e pedir.

— «Si elle canta e pede Dailhe pão e vinho, Para o pobre cego Seguir seu caminho

Larga, Anninha, a roca E também o linho : Vai ensinar o cego Seguir seu caminho.

«Aqui fica a roca, Acabou o linho ; Marchai adiante, cego. Lá vai o caminho.

— Anda, anda, Anninha, Mais um bocadinho ; Sou curto da vista, Não enxergo o caminho.

«De conde e fidalgo Me vi pretendida, Hoje de um cego Me vejo rendida.

34 CANTOS POPULARES DO BRASIL

— Cala-te condessa, Prenda tão querida, Eu sou este conde Que te pretendia.

«Cala-te, conde, Não digas mais nada ; Só quero saiamos D'aqui d'e8ta estrada.

Infinitas graças Vos dou, meu senhor, Já ter vencido Um cruel amor.

•Tuliansi

(Pernambuco)

— Deus vos salve, Juliana, No teu estrado assentada.

«Deus vos salve, rei Dom Jóca, No teu cavallo montado. Hei Dom Jóca, me contaram Que tu estavas p'ra casar?

— Quem t'o disse, Juliana, Fez bem em te desenganar.

«Rei Dom Jóca, se casaes Tornai ao bem querer, Poderás enviuvar E tomar ao meu poder,

— Eu ainda que enviuve B que torne enviuvar, Acho mais fácil morrer Do que comtigo casar.

«Espera ahi, meu Dom Joca, Deixa subir meu sobrado,

ROMANCES E XACARAS 35

Vou vêr ura copo de vinho Que p'ra ti tenho guardado.

— Juliana, eu te peço Que não faças falsidade. Vejaes que Pomos parentes, Prima minha da rainha alma. Que me deste, Juliana, N'este copinho do vinho,

Que estou com a rédea na mão, Não conheço o meu caminho? A minha mãi bem cuidava Que tinha seu filho vivo.

« A minha também cuidava Que tu casavas commigo.

— O' meu pai, senhora mãi, Me bote sua benção, Abrace bera apertado

O meu maninho JofiO, "

Meu pai, senhora mãi,

Me bote a sua benção ;

Lembranças á Dona Maria,

Também á Dona Cellerencia.

A minha alma entrego a Deus,

O corpo á terra fria,

A fazenda e o dinheiro

Entregue a Dona Maria.

— « Cale a bocca, meu Dom Jóca, Ponde o coração era Deus,

Que este copo de veneno Quem te ha de vingar sou eu.

— Já acabou-se, já acabou-se, O' flor de Alexandria !

Com quem casará agora Aquella moça Maria ? Já acabou-se, já acabou se, Já acabou-se, já deu fim. Nossa Senhora da Guia Queira se lembrar de mim.

36 CANTOS POPULARES DO BRASIL

^X.£iC£ir£L de Dom «lorge

(Ceará)

Dom Jorge se namorava D'uma mocinha mui bella ; Mas se apanhando servido Ousou logo de ausentar-se Em procura d'outra moça Para com ella casar. Juliana que d'Í8to soube, Começou logo a chorar, A mãi lhe perguntou :

— De que choras, minha filha ? «E' Dom Jorge, minha mãi. Que com outra vai casar,

— Bem te disse, Juliana,

Que em homens não te fiasses ; Não era dos primeiros Que as mulheres enganasse.

— «Deus te salve. Juliana, No teu sobrado assentada ! «Deus te salve, rei Dom Jorge, No teu cavallo montado. Ouvi dizer, rei Dom Jorge, Que estavas pai-a casar?

— «E' verdade. Juliana, Te vinha desenganar,

«Esperai, rei Dom Jorge, Deixa eu subir o sobrado ; Deixa buscar um copinho Que tenho p'ra ti guardado.

— « Eu lhe poço. Juliana, Que não haja falsidade ; Olhe que somos parentes, Prima rainha da rainha alma.

ROMANCES E XACARAS

«Eu lhe juro por minha mãi, Pelo Deus que nos creou, Que rei Dom Jorge não logra Esse novo seu amor.

— « Que me deitas, Juliana, Ií'e8te teu copo de vinho? Estou com as rédeas nas mãos. Não enchergo meu rucinho ? Ai, que é do meu paisinho, Por elle pergunto eu ? Eu morro, é de veneno Que Juliana me deu.

— Morra, morra o meu filhinho,

Morra contrito com Deus,

Que a morte que te fizeram

Ella quem vinga sou eu.

— « Valha-me Deus do céo,

Que estou com uma grande dôr;

A maior pena que levo

E' não vêr meu novo amor.

37

A. flor de Alexaodria

(Sergipe)

Adeus, centro da firmeza, Adeus, flor de Alexandria, Se a fortuna me ajudar Te buscarei algum dia. Hão sei se mais te verei ; Qual será a minha sorte ? D'eu te amar ate á morte, Como d'ante8 eu te amei? Meu coração já te dei, A outro não posso dar ; Só a ti posso affirmar,

38 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Que d'outro não ha-de ser. Guarda pois esta fii-meza, Nunca te esqueças de mim; Se a fortuna me ajudar, Esta ausência terá fim. Adeus, jasmim de alegria, Espelho aonde me via ; Kompe o sol e rompe a aurora, Adeus, clara luz do dia.

Branca- Flor

(Versão do Recife)

« Se fora na minha terra, Filha, te baptizaria : O nome que eu te botava Rosa flor de Alexandria, Que assim se chamava Uma irmã que eu tinha, Que os mouros carregaram Desde bem pequenininha.

— Se tu visses essa irmã, Tu a conheceríeis? Que signal me davas d'ella? « Um signal de carne tinha, Em cima do peito trazia, Que ella assim se chamava Eosa flor de Alexandria.

ROMANCES E XACARAS 39

X-acara de FIõres-Bella

(Versão do Ceará)

— Mouro, se fores ás guerras

Trazei-me uma captiva,

Que não seja das mais nobres,

Nem também da vilania ;

Seja das escolhidas

Que em Castelhana havia.

Sahiu o conde Flores Fazer essa romaria : A condessa, como nobre, Foi em sua companhia. Matam o conde Flores, Captivaram Lixandria, E trouxeram de presente A' rainha da Turquia.

« — Vem cá, vera cá, minha moura, Aqui está vossa captiva ; Já vou entregar as chaves, As chaves da minha cozinha. « Entregai, entregai, senhora, Que a desgraça foi só minha ; Ainda hontem ser senhora, Hoje escrava de cozinha.

Ao cabo de nove mezes Tiveram os filhos n'um dia : A moura teve um filho, A captiva uma filhinha. Levantou-se a moura Com três dias de parida, Foi á cama da escrava : — Como estaes, escrava minha? « Como hei de estar, senhora ? Sempre na vossa cozinha.

40 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Foi olhando para a criança, Foi achando muito linda :

— Se estivesses em tua terra Que nome tu botarias ?

« Botaria FIôres-Bella, Como uma mana que tinha, Que 08 mouros carregaram, Sendo ella pequenina.

— Se tu a visses hoje Tu a conhecerias ?

« Pelo signal que tinha Só assim a conhecia;

— Que tinha um lyrio roxo Que todo o peito cobria !

« Pelo signal que me daes, Bem parece mana minha.

— Vem cá, vem cá, minha moura. Que te diz 'tua captiva ?

'« Eu já estou bem agastada,' E já me vou anojar. Tu mandaste lá buscar, O teu cunhado matar.

— Se eu matei meu cunhado, Outro melhor te hei de dar.

— « Farei tua irmã senhora Da minha naonarchia !

« Eu não quero ser senhora Da tua monarchia, Quero ir para a minha terra Onde contente assistia.

« — Apromptai, apromptai a nau, Mais depressa em demasia. Para levar Lixandria Ella e sua filhinha. «Adeus, adeus, Flôres-Bolla! Vai»to embora Lixandria.

ROMANCES E XACARAS 41

E dái lá muitas lembranças Á nossa parentaria ; Que eu fico como moura Entre tanta mouraria.

(Sergipe)

A lima que você mandou No meu peito se acabou ; Quando a lima era tão doce, Quanto mais quem a mandou !

Você manda e cu recebo, Vidinha por derradeiro... Um cravo que eu achei Aberto no seu craveiro.

Não será de cheiro igual A lima que me mandou ; As casquinhas eu guardei Até sua vista primeira. Quem no seu jardim plantou Tão rico pé de limeira, Que de doce já enfara. Que p'ra mim só se compara A um beijo de Pua bocca ? Só um caroço não tinha... Pago bem a quem me trouxe. Que o cheiro não acabou se ; Certo é qne muito cheira A lima que me maudou.

42 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Pegue na sua liminha Enterre lá no jardim ; Que lima para cheirar Nunca vi cousinha assim... A lima verde é cheirosa !... Deixa-me, fructa amorosa, O teu pé é o espinheiro? Pois me chamam derroteiro No centro dos namorados... Lima verde tem bom cheiro ; O amor não é por dinheiro ; Mas p'ra onde elle pendeu...

^ Genipapo

(Sergipe)

— Meu gonipapo doce,

Allivio de toda a tarde,

Bem podéra me levar

Para allivio de meus males.

« Fique-se com Deus, meu bem,

Meu genipapo gostoso ;

Que no tempo que eu lhe amava,

Por vossê me desvelava,

E' porque sempre cuidava

Que vossê firme seria ; ^

Mas já que chegou o dia

De vossê de mim se esquecer,

Procurando a quem foi seu.

Podo viver na certeza

Que p'ra mim vossê morreu.

ROMANCES E XACARAS ^^

Senhor I*oi-eira de Moraes

(Sergipe e Rio de Janeiro) Onde vai, senhor Pereira de Moraes? Vossê vai, não vem cá mai8 ; As mulatinhas ficam dando ais, Paliando baixo, Para metter palavriado... Tomando o pente P'ra fazer seu penteado... Com bem cuidado Para abrir liberdade? (1) Qu'é d'êl-0 peru azul? Qu'é d'êl a banha do teyu ? Dois amantes vão dizendo « Venda a roupa e fique nu... » Mulatinhas renegadas, Mais as suas camaradas, Me comeram o dinheiro. Me deixaram esmolambado ; Ajuntaram-se ellas todas P'ra fazer-me galhofadas... Ora, meu Deus, ^

Ora, meu Deus, "^

Qu' estas mulatinhas São peccados meus...

A Mutuca

(Sergipe)

Hoie eu fui por um caminho E topei um gavião Com a mutuca no chapéu, Moriçoca no calção.

(1) Chama-se assim o repartimcnto do cabeUo pelo meio da cabeça, a estrada real, como dizem

44 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Encontrei um persevejo Montado n'um caranguejo, Caranguejo de barrete, Moriçoca de balão. Homem velho sem ceroulas Não se atrepe em bananeira ; Mulher velha alcoviteira, Toda gosta de fuucção.

Arrepia sapucaia, Sambambaia ;

Manoel Pereira

Macacheira,

Manipueira. (1) O teu pai era ferreiro, O meu não era ; Tua mãi toca folies,

Meu amor, Para tocar alvorada Na porta do trovador.

It^edondo, sinhá

(Sergipe)

Oh! sinhá, minha sinhá, Oh I sinhá de meu abrigo. Estou cantando o meu redondo, Ninguém se importe commigo.

Eedondo sinhá.

Certa velha intentou Urinar n'uma ladeira,

(1) Macacheira 6 o aypim, Manihot-áypi; a manipueira é o caldo da mandioca depois de extrahida d'elle a tapioca ou pol- Tilho.

ROMANCES E X AC ARAS 45

Encheu rios e riachos, E a lagoa da Kibeira,

Eedondo, sinhá.

E sete engenhos moeu, Sete frades afogou, E a maldita d'esta velha Inda diz que não mijou...

Redondo, sinhá.

Esta velha intentou Vestir panno de fustão, Precisou quinhentos covados P'ra fazer um cabeção.

Redondo, sinhá.

Depois do panno cortado Não sahiu de seu agrado ; Precisou d'outros quinhentos Para fazer os quadrados. (1)

Redondo, sinhá.

Esta velha intentou Tirar um dente do queixai, Procurou quinhentos bois E cem cordas de laçar.

Redondo, sinhá.

Não sou pinto de vintém, Não sou frango de tostão ; A maldita d'e8ta velha Quer fazer de mim capão.

Redondo, sinhá.

(1) Partes da camisa da mulher que ficam sob os braços ; opp5em-se ás hombreiras .

CANTOS 5

46 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Eu caso comtigo, velha, Ha de ser com condição D'eu dormir na boa cama, E tu, velha, no fogão.

Redondo, sinhá.

Eu casei comtigo, velha, P'ra livrar da filharada... Quando entrou em nove raezes Pariu cem de uma ninhada !

Redondo, sinhá.

Trinta e ura meios de sola Na praça se rematou, P'ra fazer seu sapatinho... Assim mesmo não cliegou.

Redondo, sinhá.

A velha quando morreu, Eu n»andei-a enterrar ; Como não coube na terra Mandei-a lançar no mar.

Redondo, sinhá.

A.I1 ! Redondo, sinhá !

(Rio de Janeiro)

Ah! redondo, sinhá, Senhora do meu favor. Estou cantando o meu redondo, Que me importa, meu amor ?

Redondo, sinhá.

ROMANCES E XACARAS 47

O cabello cfesta velha, E' caso do admirar, Um fio de seu cabello Dá prima para tocar...

Redondo, sinhá.

Esta velha já mijou Lá detraz de uma gamboa ; Inundou um campo inteiro, Alagou uma canoa...

Eedondo, sinhá.

O dentinho d'esta velha, E' caso de admirar, Toda lima junta de bois Não arredou do lugar...

Eedondo, sinhá.

Manoel de O' Berns^rdo

(Ceará)

Indo eu para a novena Na villa da Floresta, O major António Lucas Convidou-me para a festa. «Seu major António Lucas, Como é que eu hei de ir ? Quem anda por terra alheia Não tem roupa p'ra vestir. — Dou-te cavallo de sei la, E roupa p'ra te vestir. Dinheiro para comeres, Escravo p'ra te servir. — Estava jantando em casa

48 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Um dia bem descansado, Quando dei fé que chegava Ccavallo fino seilado : «Seu major manda dizer Que é já tempo do chamado !» Quando eu sahi de casa Logo peguei a encontrar, Era homens e mulheres...

— «Vai cantar com Rio-Preto? E' melhor que não vá lá!...» Porque se importa esta gente Da desgraça que commetto ? Hão de ter logo noticia

Que fim levou Rio-Preto. Quando ganhei lá por dentro Waquelle campo mais largo, O povo que eu encontrava De mim ficava pasmado : «Queira Deus este não seja Manoel de O' Bernardo !» Distante bem quinze léguas De mim tiveram noticias ; Ao major António Lucas Foram pedir as alviças. Era gente p'ra me vêr Como a doutor na justiça, E o povo de Rio-Preto Era urubu na carniça. Seu major António Lucas, Quando elle me enxergou. Botou odo de arcance : «Lá vem o meu cantador !» Quando fui chegando em casa, Na entrada do terreiro, Antes de lhe dizer adeus, Deu-me um abraço primeiro ;

— Ora vem cá, ó Bernardo, Filho de Deus verdadeiro. «Seu major António Lucas, Me mande dar do cear; Qnero vêr se Rio-Preto Inda é forte no lugar.»

ROMANCES E XACARAS 49

Elle puxou pelo braço

E mandou botar a ceia ;

Eu fiquei agradecido,

Pois estava em terra alheia.

Ao levantar a toalha,

Puz as mãos para rezar,

Quando chegou um aviso

Que já vinham me chamar.

Eu sahi logo á frescata,

Eio-Preto me fallou.

Não te afastes, Eio Preto,

A resposta já te dou.

« — Manoel do O' Bernardo,

Olha que já estou previsto,

Segura o hotão da calça,

Aqui tens homem na vista.

« Eio-Preto, tu vigia.

Olha que bom não sou, não,

Aperta o botão da calça,

Segura o cós do calção.

« — A onça não faz carniça

Que não lhe coma a cabeça,

Nunca vi a cantador

Que por fora não conheça.

« Apois manda fazer uma

Com seis braças de fundura ;

Como é bicho de represa,

Tanto lava como fura.

Quando vim da minha terra

Truce ferro cavador

Para tapar Eio-Preto,

Deixal-o sem sangrador.

« — Se tapares o meu rio,

Não tapas o meu riacho,

Que eu represo nove léguas,

Botando a parede abaixo.

« Eio-Preto, se tu vires

Eu passear em gangorras,

Se tu vires, não te assustes,

Se te assustares, não corras ;

Se correres, não te assombres ;

Se te assombrares, não morras.

&0 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Kio-Preto, não me vexo Para subir a ladeira, Subo do cócra e de banda, Subo de toda a maneira ; Até mostro preferencia Em subil-a na carreira. « — Manoel do O' Bernaldo, Olha, ja me vou d'aqui ; Já estou certificado Que tene o major por ti. « O fama do Eio-Preto, Um cabra tão cantador, Descobriu por bocca própria Que era atraiçoador. « — Manoel do O' Bernardo, Reza o acto de contrição. Que viemos te matar, Não ficas mais vivo, não, A madrinha da noiva Poi quem te mandou matar, Para de outra donzella Te não ires mais gabar. « A madrinha do noivado, Por ser moça de acção, Por um elogio tirado Deu-rae a mim um patacão ; Deu quatro para o meu bolso, E quatro p'ra minha mão. « — Nós viemos te matar. Ganhando trinta mil réis. Mas por causa do despacho Cada um te damos dez.

ROMANCES E XACARAS ^1

i%. Moura

(Pernambuco)

Estava a moura Em seu lugar, Foi a mosca Lhe fazer mal ; A mosca na moura, A moura fiava; Coitada da moura, Que tudo a ia Inquietar !

Estava a mosca Em seu lugar, Foi a aranha Lhe fazer mal ; A aranha na mosca, A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura, Que tudo a ia Inquietar !

Estava a aranha Em seu lugar, Foi o rato Lhe fazer mal; O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura. Que tudo a ia Inquietar !

Estava o rato Em seu lugar. Foi o ííato

52 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Lhe fazer mal ; O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura, Que tudo a ia, Inquietar !

Estava o gato Em seu lugar. Foi o cachorro Lhe fazer mal ; O cachorro no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura. Que tudo a ia Inquietar !

Estava o cachorro Em seu lugar, Foi o pau Lhe fazer mal ; O pau no cachorro, O cachorro no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura, Que tudo a ia Idquietar !

Estava o pau No seu lugar.

ROMANCES E XACARAS 53

Foi o fogo Lhe fazer mal ; O fogo 110 pau, O pau no cachorro, O cachorro no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A. aranha na mosca, A mosca na moura, Â moura fiava ; Coitada da moura, Que tudo a ia Inquietar !

Estava o fogo Em seu lugar, Foi a agua Lhe fazer mal ; A agua no fogo, O fogo no pau, O pau no cachorro, O cachorro no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura, Que tudo a ia Inquietar !

Estava a agua Em seu lugar, Foi o boi Lhe fazer mnl ; O boi na agua, A agua no fogo, O fogo no pau, O pau no cachorro. O cachorro no gato, O gato no rato,

54 CANTOS POPULARES DO BRASIL

O rato na aranha, A aranha na mosca, A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura, • Que tudo a ia Inquietar !

Estava o boi Em seu lugar, Eoi a íiaca Lhe fazer mal ; A íaca no boi, O boi na agua, A agua no fogo, O fogo no pau, O pau no cachorro, O cachorro no gato, O gato no rato, O rato na aranha, A aranha na mosca A mosca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura, Que tudo a ia Inquietar !

Estava a faca Em seu lugar. Foi o homem Lhe fazer mal ; O homem na faca, A faca no boi, O boi na agua, A agua no fogo, O fogo no pau, O pau no cachorro, O cachorro no gato, O gato no rato, O rato na aranlia, A aranha na mosca,

ROMANCES E XACARAS 55

A mosca na moura, A uioura íiuva ; Coitada du moura, Que tudo a ia Inquietar !

Estava o liomem Em seu lugar, Foi a moiie Lhe fazer mal ; A morte no homem, O homem na faca, A faca no boi, O boi na agua, A agua no fugo, O fogo no pau, O pau no cachorro, O cachorro no gato, O gato no rato, O rato na aianha, A aranha na mosca, A mohca na moura, A moura fiava ; Coitada da moura. Que tudo a ia Inquietar !

à Hil>eii"a "Velha

(Sergipe)

Ribeira velha, Porto de mar, Aonde as barquinhas Vão calafetar. . . Peguem nu ferragem, Lancem lá no mar

56 CANTOS POPULARES DO BRASIL

P'ra fazer uraa nau, Uma nau bem galante, Para navegar Pelas partes da índia. . . Aquelle menino E' da banda miúda. Cambrainhas finas Não são p'ravo88ê; P'ra gente, sinhá, Que me íi\z a mercê, Que deita na cama, Não tem que dizer. Félix do Retiro Mandou-me chamar. Eu mandei dizer Que não ia lá. . . Arengas com frade Não quero tomar. Conversas de dia Acabam de noite Em prantos de choros De Manoel João, Que anda na rua Com seu pé no chão, Bulindo com mulatinhas. Bulindo com crioulinhas. Lá no Mundo Novo Tem uma casinha ; Dentro delia mora Ceila mulatinha.

ROMANCES E XACARAS 57

O «Inburú

(Sergipe)

Quando eu vim do Jaburu Fui á noite passear, Encontrei com eirysinho Carregado de araçá ; E fallei para comprar Para dar á niãi Thereza. Como foi maracareza Engordar o meu vintém. . , As meninas do Bugio Não comem sinão feijão.... Meus senhores e senhoras, Desculpai a miuha acção.

A Mulatinha

(Sergipe)

— Estava de noite Na porta da rua, ' Proveitando a fresca Da noite de lua, Quando vi passar Certa mulatinha, Camisa gommada, Cabello entrançadinho. Peguei o capote,

CANTOS POPULARES DO BRASIL

Sahi atraz delia, No virar do beeco Encontrei com ella. Ella foi dizendo : « Senhor, o que quer ? Eu já não posso Estar mais em pé. Olhei-lhe p'r'as orelhas, Vi-lhe uns brincos finos, Na restea da lua Estavam reluzindo. Olhei p'r'o pescoço, Vi um bel lo collar ; Estava a mulatinha Boa de so amar. Olhei-lhe p'r'os olhos, Vi bem fci ramela ; De cada um torno Bem dava uma vela. Olhei-lhe p'r'a cara. Não lhe vi nariz ; No meio do rosto Tinha um chafariz. Olhei-lhe p'r'a bocca Não vi-lhe um só dente ; Parecia o diabo Em fiííura de gente. Olhei-lhe p'r'o8 peitos, E-am de marmota ; Pareciam bem Peitos de uma porca. Olhei-lhe p'r'aH pernas, Eram de vaqueta ; Comidas de lepra, E cheias de greta. Olhei-lhe ])'r'o8 pés. Benzi mo do medo; Tinha cem bichos Em cada um dedo.

ROMANCES E XACARAS 59

Os cócós de cordão

(Sergipe)

« A minba mana Luiza E' moça de opinião ; Passou a mão na thesoura, Deu com os cócós no chão.

Sete canadas de azeite, Banha de camaleão E' pouco p"ra fazer banha P'ra estes cócós do cordão.

O cebo está muito caro, 'Stá valendo um dinheirão ; Quero vêr com que se acocham Estes cócós de cordão.

Os caixeiros da Estancia (1) Levam grande repellão, Para não venderem sebo P'ra estes cócós de cordão.

Deus permitta que não chova, P'ra não haver algodão ; Quero vêr com que se amarram Estes cócós de cordão.

Na fonte da gamei leira Não se lava com sabão ; Se lavam com folhas verdes Estes cócós de cordão.

(1) Cidade de Sergipe,

60 CANTOS POPULARES DO BRASIL

As negras de taboleiro Não comem mais carne, não; Só comem sebo de tripa D'e8te8 cócós de cordão.

O moço que é brasileiro, Que conserva opinião, Não deita na 8ua rede D'e8te8 cócós de cordão.

Ajuntem se as moças todas Em redor d'e8te pilão, Qu'é p'ra pizarem o sebo P'ra estes cócós de cordão.

Ajuntem-se as velhas todas Em roda do violão, Qu'é p'ra dançarem o samba (1) J)'este8 cócós de cordão.

A Hflocfueca

(Sergipe e Bahia)

Minha moqueca está feita, Meu bem ;

Vamos nós todos jantar : Bravos os dêngos Da minha ya_yá; Moqueca de coco, Molho de fubá ; Tudo bem feitinho

(l)Dança popular ; synonymo de chila, caterèiê, bahiano^ andango, candomblé.

ROMANCES E XACARAS Cl

Por mão de yajá ; Tudo mexidinho Por mão de KÍnhá!... Qual será o ladrão Que não gostará?!... Qual será o demónio Que não comerá?!...

Ella tem todos temperos,

Meu hem ; Só falta azeito dendè ;

Bravos os dèngos

Da minha yayá ;

Moqueca de coco,

Molho de fubá, etc*

Ella tem todos temperos,

Meu bem ; O que lhe falta é limão :

Bravos os dêngos

Da minha yayá ;

Moqueca do coco,

Molho de fubá,

Tudo bem feitinho

Por mão de yayá, etc.

Ella tem todos temperos.

Meu bem ; Também levou pimentão.

Bravos os dêngos

Da minha yayá ;

Moqueca de coco,

Molho de fubá,

Tudo bem feitinho, etc.

Minha moqueca é gostosa

Meu bem ; As moças venham provar. Bravos os dêngos,

CANTOS

62 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Da minha yayá ; Moqueca de coco, Molho de fubá, Tudo bem íeitinho, etc.

Oh ! que gente tão gulosa, Meu bem ;

A moqueca se acabou. Bravos os dêngos Da minha yayá ; Moqueca de côeo, Molho de fubá, Tudo bem feitinho, etc.

O ladrão do Padresinho

(Sergipe)

O ladrão do padresinho Deu agora em namorador ; Padre, vossê vá-se embora, Que eu não quero o seu amor.

— O amor não é seu

E' de Eaphael ;

Raphael quando fôr

E' de quem quizer...

Vou criar as minhas raivas

Com meus calundus, (1)

P'ra fazer as cousinhas

Que eu bem quizer...

Ai ! me largue o babado !

Ai ! me largue, diacho ! (2)

Que diacho de padre,

Ai, meu Deus !

Que diacho de padre,

Meu Santo António !...

(1) Zangas, aborrecimentos, effeitos do flato, como dizera. (3) Transformai^ão de diabo.

ROMANCES E XACARAS 63

O padre já estava orando, Quando a mulata chegou ; Veiu dizer lá de dentro : — Ea sou seu venerador :

O amor não é seu,

E' de Eaphael ;

Eaphael quando for, etc.

O padre foi dizer missa Lá na torre de Belém ; Em vez de dizer Oremus, Chamou Maricas — Meu bem !...

O amor não é seu,

E' de Kaphael ;

Eaphael quando fòr, etc.

Bu]^perguntei ao padre : Porque deu em meu irmão ? — Com saudades das morenas, Não quero ser padre, não.

O amor não e seu,

E' de Eaphael ;

Eaphael quando fôr, etc.

Quero bem á mulatinha.*.

(Sergipe)

Quero bem á mulatinha Por ser muito de meu gosto ; Se os parentes se anojarem, Um valente topa outro. Pelo feixe da espingarda, Pelo cano que ella tem, Pelo fio de minha espada Que não engeito a ninguém.

6-t CANTOS POPULARES DO BRASIL

Sc puxar por minha espada 2^ a beirinha da lagoa, Se acaso fico perdido, Seja por coutíiDba boa. -Rompo chuvas e trovões. Coriscos, e criminoso Ando no mundo, queixoso Sem de mim se fallar nada !. . . Hei-de amar a mulatinha Pelo feixe da espingarda. Viva SanfAnna e Maria, E S.Joaquim n'este dia ; Deus quando subiu p'ra guia Deixou para valimento O testemunho da gente. Para ampai^o dos christãos Viva SanfAnna e Maria.

Chula

(Pernambuco)

Eu nasci dentro da lima,

Do caroço fiz encosto ;

Ai, amor!

Quem geme

E' que sente a dôr. . .

Ai, meu bem, Divirta-se e passe bem 1

Ai, minha vida,

Minha saia,

Minha jóia,

Minha pitingoia !

Ai, amor !

í^uem gemo

E' que sente a dôr. . .

Ai, meu bem, Divirla-se, e passe bem !

ROMANCES E XACARAS 65

Fragmento tio Cabelleira

(PernaBabuco)

— Fecha a porta, gente, Cabelleira abi vem, Matando mulheres, Meninos taihbem. Corram, minha gente, (Jabelleira ahi vem, EUe não vem só, Yem seu pai também. « Meu pai me pediu Por sua benção Que eu não fosse molle, Fosse valentão. Lá na minha terra, Lá em Santo Antão, Encontrei um homem Feito um guaribão, Puz-lhe o bacamarte, Foi pá, pi, no chão. Minha mãi me deu Contas p'ra rezar. Quem tiver seus filhos Saiba-08 ensinar, Veja o Cabelleira Que vai a enforcar.

Meu pai me chamou :

— Zé Gomes, vem cá ; Como tens passado No cannavial ? «Mortinho de fome, Sequinho de sede,

Só me sustentava Em canninhas verdes,

— Vem cá, José Gomes, Anda-me contar Como te prenderam

<6o CANTOS POPULARES DO BRASIL

No cannavial? « Eu me vi cercado. De cabos, tenentes, Cada pé de canna Era um pé de gente.

O Rabicho dei Oeralda

(Ceara)

I

Eu fui o liso Eabicho, Boi de fama conhecido ; Nunca houve n'e8te mundo Outro boi tão destemido. Minha fama era tão grande. Que enchia todo o sertão Vinham de longe vaqueiros P'ra me botarem no chão. Ainda eu era bezerro Quando fugi do curral B ganhei o mundo grande Correndo no bamburral. Onze annos eu andei Pelas catingas fugido, Minha senhora Geralda Já me tinha por perdido. Morava om cima da serra Onde ninguém me avistava, Só sabiam que era vivo Pelo rasto que eu deixava. Sahi um dia a pastar Pela malhada do Chisto, Onde por minha desgraça D'um caboclinho fui visto.

ROMANCES E XACARAS -67

Partiu elle de carreira E foi por alli aos topes Dar novas de me ter visto Ao vaqueiro Joiíé Lopes. José Lopes que isso ouviu, Foi gritando ao filho João : — Vai-me vêr o Barbadinho, E o cavallo Tropelão. Dá um pulo no compadre, Que venha com o seu ferrão, Para irmos ao liabicho, Qu'ha-de ser um carreirão. »

Foi montando o José Lopes E deu linha ao Barbadinho, Tirando inculcas de mim Pela gente do caminho. Encontrou Thomé da Silva Que era velho topador :

— Dá me novas do Eabicho Da Geralda, meu senhor ?

— Homem, eu nãc o vi ; Se o visse, do mesmo geito Ia andando o meu caminho Que era lida sem proveito. «Pois então saiba o senhor, A cousa foi conversada,

A minha ama já me disse Que d'e8se boi não quer nada. Uma banda e mais o couro Ficará para o mortorio, A outra será p'ra missas A'8 almas do purgatório.

Despediu-se o José Lopes E metteu-se n'um carrasco ; Dando n'um rasto de boi, Conheceu logo o meu casco. Todos três muito contentes Trataram de me seguir, Consummiram todo o dia,

€8 CANTOS POPULARES DO BRASIL

E á noite foram dormir. No fim de uma semana Voltaram mortos de fome, Dizendo : «O bicho, senliores, Não é boi ; é lobishome.»

II

Outro dia que eu malhei Perto d'uma ribanceira, Ao longe vi o Cherem Com seu amigo Moreira. Arranquei logo d'ahi Em procura de um fechado ; Juntou atraz o Moreira Correndo como um damnado. Mas logo adiante esbarrei Escutando um zoadão ; Moreira se despenhou No fundo de um barrocão :

« Corre, corre, boi malvado,

Não quero saber de ti,

Já me basta a minha faca

E a espora que perdi.

Alevantou-se o Moreira

Juntando todo o seu trem,

E gritou que lhe acudisse

Ao seu amigo Cherem.

Corre a elle o Cherem

Com muita resolução:

— « Não se engane, só Moreira,

Que o Rabicho é tormentão.

« Ora deixe-me, Cheren-i ;

Vou mais quente que uma braza.

Seguiram pela vereda

E lá foram tor á casa.

III

Kesolveram-se a chamar De Pajeú um vaqueiro ;

ROMANCES E XACAKAS òí^

D'entre todos que lá tinha Era e maior catingueiro. Chamava-se Ignacio Gomes, Era um cabra coriboca, De nariz acham urrado, Tinha cara de pipoca. Antes que de lá eahisse Amolou o seu ferrão : « Onde encontrar o Rabicho D'um tope o boto no chão.

Quando esse cabra chegou Na fazenda da Gruixaba, Foi todo o mundo dizendo : Agora o Rabicho acaba. « Senhores, eu aqui estou. Mas não conheço dos pastos : Só quero me dêem um guia Que venha mostrar-me os rastos. Que eu não preciso de o vêr Para pegar o seu boi ; Basta me só vêr-lhe o rasto De três dias que se foi. »

IV

De manhã logo mui cedo Fui á malhada do Chisto, Era antes que visse o cabra Já elle me tinha visto. Encontrei me cara a cara Com o cabra topetudo ; Não sei como n^esse dia Alli não se acabou tudo. Foi uma carreira feia Para a Serra da Chapada, Quando eu cuidei, era tarde, Tinha o cabra na rabada. « Corra, corra, camarada, Puxe bem pela memoria ; Quando eu vim da minha terra Não foi p'ra contar historia. »

70 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Tinha adiante um páu cabido Na descida de um riacho ; O cabra saltou por cima, O ruço passou por baixo. «Puxe bem pela memoria, Corra, corra, camarada ; Quando eu vim de minha terra Não vim cá dar barrigada.» O guia da eontra-banda Ia gritando também : «Veja que eu não sou Moreira, Nem seu amigo Cherem.»

Apertei mais a carreira, Fui passar no boqueirão. O ruço rolou no fundo, O cabra pulou no chão. N'e8ta passagem dei linha, Descancei meu coração, Que não era d'esta feita Que o Eabicho ia ao moirão.

O cabra desfigurado Lá foi ter ao carrapicho : — Seja bem apparecido, Dá-me novas do Eabicho ? «Senhores, o boi eu vi, O mesmo foi que não vêr, Pois como este excommungado Nunca vi um boi correr.» Tornou-lhe o Góes n'este tom : — .Desengane-se co'o bicho; Pelos olhos se conhece Quem dá volta no Eabicho. Esse boi, é escusado, ■" Não ha quem lhe tire o fel ;

Ou elle morre de velho, Ou de cobra cascavel.

ROMANCES E XACARAS 71

Veiu aquella grande pêcca De todos tão conhecida ; E logo vi que era o caso De despedir-me da vida. Seecaram-se os olhos d'agua Onde eu sempre ia beber, Botei-me no mundo grande, Logo disposto a morrer. Segui por uma vereda Até dar n'um cacimbão, Matei a sede que tinha, Eefresquei o coração. Quando quiz tomar assumpto Tinham fechado a porteira ; Achei-me n'uma gangorra Onde não vale carreira. Corrigi os quatro cantos, Tornei a voltar atraz, Mas toda a minha derrota Foi o diabo do rapaz.

Correu logo para casa E gritou aforçurado : «Gentes, venham depressa Que o Éabicho está pegado.» Trouxeram três bacamartes, Cada qual mais desalmado ; Os três tiros que me deram De todos fui trespassado. Só assim saltaram dentro, Eram vinte p'ra me matar. Sete nos pés, dez nos chifres, E mais três p'ra me sangrar. Disse então o José Lopes Ao compadre da Mafalda : «Só assim nós comeriamos Do rabicho da Geralda».

72 CANTOS POPULARES DO BRASIL

VI

Acabou-se o boi de fama, O corredor famaoaz, Outro boi como o Ilabicho Não haverá D unca mais.

O Boi-Espsàcio

(Sergipe)

Eu tiuha meu Boi-Espacio, (1) Qu'era meu boi cortelleiro, ^2) Que comia em três sertão, (3) Bebia na ('ajazeira, (4) Malhava (5) lá no oiteiro, Descançava em Eiachão. (6) Eu tinha meu Boi-Espacio, Meu boi preto caraúna ; Por ter a ponta mui fina, Sempre fui botei-lhe a unha. Estava na minha casa, Isa rainha porta assentado ; Chegou seu António Ferreira, (7) Montadado no seu rução. Com o irmão de Damião. Montado no seu lazão, (8)

(1) Boi de pontas largas.

(2 Boi manso, que vem sempre ao curral, por opposii^ao ao boi bo.rhatão, que é o amontado.

(3) O povo nao guarda os pluraes, quando assim o exige a rima.

(4) Logar próximo à villa do Lagarto, em Sergipe. _

(.5) O povo ordinariamente diz : maiáva^ muiadô, mai«t. em logar de malhava, malhador, malhar. (6) Villa da província de Sergipe. (7/ 4ntunio Ferreira, e Damião, vaqueiros celebres. {8J Lazão por alazão.

ROMANCES E XACARAS 73

Dizendo do coração : — Botai-me este boi no chão. Gritei pelo meu cachorro, Meu cachorro Tubarão : «Agora, meu boi, agora, Faz acto do contrição! Ecò, meu cachorro êcô !. . . » No curral da Piedade Eu dei com meu boi no chão. Ao depois do boi no chão, Cnegon o moleque João, Se arrastando pelo chão, Fazendo as vezes de cão, (1) Pedindo o sebo do boi P'ra temperar seu feijão. A morte deste meu boi A todos fizera pena ; Ao depois d'e8te boi morto, Cabou-se (2) meu boi, morena. « No anno em que eu nasci, No outro que me criei. No outro que fui bezerro, No outro que fui mamote, (3) No outro que fui garrote, No outro que me caparam Andei bem perto da morte. «Minha mai era uma vacca, Vaquina de opinião ; Ella tinha o ubre grande Que arrastava pelo chão. Minha raãi era uma vacca, '

Vaquinha de opinião ; Emquanto fui barbatão Nunca entrei em curralão. Estava no meu descanço Debaixo da cajazeira, Botei 09 olhos na estrada,

(1) O diabo, o demónio.

(2) T or acabotc-se.

(3) Bezerro grande.

CANTOS POPULARES DO BRASIL

Lá vinha seu António Ferreira... Estando n'uma malhada Já na sombra recolhido, Logo que vi o Ferreira Alli achei-me perdido. Foi-me tudo ao contrario, E sempre fui perseguido ; Já me conhecem o rasto, O Boi-Espacio está perdido, ííão tem a culpa o Ferreira, Que não me pôde avistar, Foi o caboclo damnado Que parte de mim foi dar. O seu António Ferreira Tem três cavallos damnados : O primeiro é o ruço, O segundo é o lazão, O terceiro é o Piaba... Três cavallo endiabrados! (1) Mas eu não temo cavallo, Que se chama o Deixa-fama , Também não temo o vaqueiro Que derrubei lá na lama. Me metteram no curral, Me trancaram de alçapão ; E bati n'um canto e n'outro, Não pude sahir mais não ! Adeus, fonte onde eu bebia, Adeus, pasto onde eu comia, Malhador onde eu malhava; Adeus, ribeira corrente. Adeus, caraiíba verde, Descanço de tanta gente!...

O couro do Boi-Espacio Deu cem pares de surrão, Para carregar farinha Da praia de Maranhão.

(1) Por cavallos endiabrados ; ha muito (i'Í3to uos caatos po- pulares, quando o exige o metro.

ROMANCES E XACARAS 75

O fato do Boi-Espacio Cem pessoas a tratar, Outras cem para virar... O resto pr'a urubusada. O cebo do Boi-Espacio D'elle fizeram sabão Para se lavar a roupa Da gente lá do sertão. (1) A lingua do BoirEspacio, D'ella fizeram fritada ; Comeu a cidade inteira, Não foi mentira, nem nada. Os miolos do Boi-Espacio, D'elle8 fez-se ])aneliada ; Comeu a cidade inteira, O resto p'ra cachorrada. Os cascos do Boi-Espacio, D'elle8 fizeram canoa, Para se passar Marotos (2) Do Brasil para Lisboa. Os chifres do Boi-Espacio, D'elles fizeram colher Para temperar banquetes Das moças de Patamuté. (3) Os olhos do Boi-Espacio, D'elles fizeram botão Para pregar nas casacas Dos moços lá do sertão. Costellas do Boi-Espacio, D'ella8 se fez cavador Para se cavar cacimbas ; De duras niTo se quebrou. (4) O sangue do Boi-Espacio

(1) As rapsódias sergipanas tratam com ce rto desdém os ho- mens do sertão, a gente lá de cima, como chamam.

(2) Isto indica que esta parte, pelo menos, do Boi-Espacio é contemporânea, senão posterior, às luctas da Independência.

(3) Sertão da provincia da Bahia.

(4) E' o caso já notado,

7tí CANTOS POPULARES DO BRASIL

Era de tanta excepção Que afogou a três vaqueiros. Todos três de opinião. Canellas do Boi- Espado^ D'ella8 se fizera mão Para pizar o milho Da gente lá do sertão. S da pá do Boi-Espacio. D'ella se íéz tamborete Para mandar de presente A nosso amigo Cadete. Do x-abo do Boi-Espacio, D'elle fizeram bastão Para as velhas lá de cima Andar com elle na^mão.

O Boi Espacio

(Variante do Ceará)

Foi garrote, foi capado No curral da Piedade ; Nunca temeu a vaqueiro, Nem a vara de ferrão, Nem o mesmo José de Castro No cavallo Rinchão. Do chifre do Eoi-Espacio D'elle fez-se uma canoa, Para embarcar a gente Do Recife p'ra Lisboa. Dos olhos do Boi-Espacio D'elles fez-se uma vidraça

ROMANCES E XACARAS 97

Para eepiar as moças Quando pasi^eiam na praça. Da cabeça do B(»i-E»pacio Delia ee fez um banqueiro Para retalhar a carne Da gente do Saboeiro. O couro do Boi Ebpacio, Tirado por minha mão, Deu trinta jogos de malas, Nove pares de euirão. A rabada do Boi-Espacio, Tirada por minha mão, Deu trinta laços de corda, Nove pares de surrão. A carne do Boi Enpacio Botada no estaleiro, Comeram vinte familias De janeiro a janeiro. O corredor do Boi-Espacio Deu tamanha corredeira, Que todo o povo do Crato Ficou-se de caganeira. As tripas do Boi Espacio Tiradas por minha mão, Deu dez cargas de linguiça, Onze arrobas de sabão. Do drbulbo do Boi Espacio D'elle se fez barreila, Para se lavar a r- upa Da gente da Manoela. Da unha do Boi E>pacio Quatro obras ^e furmou, Uma jangada, uma lancha, Ura palácio e um vapor. Das orelhas ao Boi- Espacio Quatro obras ee formou. Ura abano, uraa e^teira, Uma maca, um lanibor. Este meu Boi-Espacio Morava em dous sertãos, Comia nos Cipoaes,

CANTOS

98 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Bebia nos Caldeirãos. Matei o meu Boi-Espacio Em uma tarde serena, Toda a gente da ribeira, Que não chorou, teve pena.

A. vaoca do Burel

(Pernambuco)

Na fazenda do Burel,

Nos verdes onde pastei,

Muitos vaqueiros de fama,

Nos carrascos (1) eu deixei.

O afamado Ventania,

Montado no Tempestada,

Foi quem primeiro espantou-me

Estando n'uma maiada. (á)

Mais adiante encontrei

C<^m o vaqueiro João

No sen cavallo lazão,

Já vinha coiTendo em vão.

Logo me fiz ao carrasco,

Fui-me abat-bar com o Velloso ;

No atravessar o riacho

Só lhe deixei o rasto

Por ser ello tão teimoso !

Ouvi grande tropellada

Que zunia no sertão;

Era o afamado Grinalda

Com o Ferreira Leão.

Que dois vaqueiros de fama

(1) Carrasco, matto ralo e baixo.

(2) Por malhada.

ROMANCES E XACARAS 99

Encontrei no bebedor!... Logo me fiz ao carrasco, E elles mal me enxergou. Mais adiante ouço gritar :

— Nem do rasto doa noticia, Em que carrasco escondeu-se A encantada lagartixa ! f — Eu no tempo de bezerra

A muitos vaqueiros logrei ; Ha fazenda fiz sueira, (1) Muitas porteiras pulei. Abarbada mo vejo Com o vaqueiro Miguel, No seu cavallo Festejo Na fazenda do Burel. Que «iois vaqueiros temíveis, João Bernardo e Miguel !... Perto do cu ira! os logrei, Quasi que os deixei de pé.

— «Só ee eu morrer amanhã, Ou não me chamar Miguel, Só assim dt-ixas de entrar No teu curral do Burel.

Eu te juro. lagartixa, Que não me ha^•de escapar; Nem que corras como vento Tu hat-de entrar no curral. Corre, corre, lagartixa, Quero vêr a tua fama , Que no curral do Burel Quero fazer tua cama. Toda a tninha vontade E' no teu ra^to acertar. Tu verás como se tranca A lagurtixa no curral. Cerca, Velloso, na grota, Faz esteira no baixio ; Aperta para o meu lado,

(1) Dar trabalho, fazer suar.

100 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Lá vem como um corropio. Oh ! que vaquinha damuada l Blla não corre, ella vôa... Meu cavallo já cançou, B* que a coisa não está bôa. Tenho corrido muito gado, Jíovilhote e barbatão, Nos carrascos e restinga ; AgOia fiquei logrado ^ No centro d'e8te sertão.

Bota o cavallo, Velloso, Quero vêr como se espicha, Se ainda torna a escapar A malvada lagartixa.»

Logo ao chegar ao riacho A lagartixa os cegou ; Como a noite era escura Miguel e Velloso voltou. Encontram Miguel e Velloso Com o tal do João Bernardo : Pergunta pela lagartixa; Responderam : — Estou logrado ! - O João Bernardo e Miguel, O Grinalda e o Leão, Ventania e o Velloso Tomaram para o boqueirão. (1) Logo ao entrar a gurgeia Encontram Pedro Preguiça, E já lhe vão porguni atido Se não vira a lagartica.

«Encontrei n'uma maiada

Três rezes brancas, uma lavrada,

Três castanhas requeimadas,

E uma rouxinol dir-farçuda.

O signal d'e8la vaquinha?

— Cara branca punaré, (2)

(1) Baixa ou valle profundo.

(2) Branco auiarelludo.

ROMANCES E XACARAS 101

Trar, o ferro do Burel, líão tem cauda, é coche. (1) E' cega, BÓ tem um chifre, Huito esperta e arisca ; São estes todos signaes Da afamada lagartixa. «Ora se é esta a faraanaz Que tanto susurro tem feito! Para pegar esta vaquinha B' bastante o meu Mosquete. (2) Ora, vamos todon sete Lá mais perto da maiada ; Quando passei o campestre Vi uma rez lá deitada. Afroxa a rédea, caboclo, Encosta a espora, Preguiça, Quero vêr a tua fama Com a tyranna lagartixa. Corre, corre, lagartixa^ Vae tomando mais alento ; Que o meu rucilho não corre, Já me vôa como vento. Todo o gado adiante corre, Não a quero perder de vista ; Hei-de mostrar meu talento A' vaqueirada de crista. João Bernardo não sabe Que meu cavallo é de cubica / Como eu posso ser logrado Por esta pobre lagartixa? — Aqui mesmo no carrasco Muitas famas têm ficado/ No atravessar o riacho Has-de ficar arriado. Não has-de ter o prazer De entrar eu na Boa Vista Com peia e laço e canzil Só pelo Pedro-Preguiça. Não ha vaqueiro de fama Que do carrasco me tire,

<1) Manca.

(2) Cavallo pequeno e corredor.

102 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Nem qse deixe sua trama, De dentro p'ra fora se vire. Mais adiante da matada Perdeu o Pedro- Preguiça Chapéu, espora e chicote No rasto da lagartixa.

« Antes de o sol sahir Voa-te esperar na waithé : Has-de entrar cora o laço Na fazenda do Burel.

— No riacho dá Alegria Foi a minha perdição, Quando vi o Ventania Mais o Ferreira Leão. Os destemidos vaqueiros, Velloso e o tal Grinalda, Bem montado, ás estribeiras Traziam sua guilhada. Grita o Ferreira Leão, Logo respondeu o Grinalda:

— Se não podem botar no chão, Eu mettoaminha quilhada, Járespondeu o Vejloso:

« O Ventania é cabra zarro. Bate com o chapéu na perna, Bota no chão, que eu amarro. O Ventania é decidido. Passou transes nos carrascos ; Mostrou sempre á lagartixa Que elle é cabra macho.» Desde que eu sou nascida Nanca contei com vaqueiro ; Pôde contar gravidade O Ventania o primeiro. Adeus, fazenda, adeus, pasto. Adeus, maiada e bebedor. Adeus, restinga e carrasco, Serrote do Logiador. (1)

cas

(1) Logar fresco e reservado para se botar o gado em certas epo- do anno.

ROMANCES E XACARAS

Adeus, vasante de baixo, Adeus, serra do Coité, Acabou-ee a famanaz Da fazenda do Burel.

103

jIl B C do lavrador

(Geará)

J.gora quero tratar, Segundo tenho patente, A vida de lavrador No passado e no presente.

Seva. queria ter scieneia, Dizer por linhas direitas, Para agora explicar TJma idêa bem perfeita.

Cuidados tenho de noite. De madrugada levanto, De manhã vou para a roça A correr todos os cantos.

J)omingo8 e dias santos Todos vão espairecer, Eu me acho tão moido, Que não me posso mexer.

iJstando d'e8ta sorte

Não é possível calçar,

Os pés inchados de espinhos,

E de todo o dia andar.

Jf^eliz de quem não tem Esta vida laboriosa. Não vive tão fatigado, Como eu me acho agora.

104 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Grande tristeza padece Todo aquelle lavrador, Quando perde o legume todo Porque o inverno escasseou.

J?e possível aturar Até a idade de cincoenta, Quando se cbega aos quarenta, Já parece ter oitenta.

iavradores briosos Considerara no futuro, Não tomam dinheiro sem vêr Os seus legumes seguros,

3fuitos não têm recursos. Não sabem o que hão de fazer, Não temem a percentage, Querem achar quem dê.

Nã.0 queira ser lavrador Quem tiver outra profissão, E' a vida mais amarga Deus deixou aos filhos de Adão.

Pois quando se colhe Os legumes de ura anno, Ainda se não acaba, Nova roça começando.

Çuasi sempre os lavradores T)e canna, café, cacau. Têm feitores de campo Para não passar tão mal.

i2azão elles têm Para ter contentaraento, Quera trabalha no campo E' quem padece o tormento.

6'ouberam as camarás crear Ministros p'ra proleger, N'osta terra não tem um banco Que a ella possa favorecer.

ROMANCES E XACARAS 105

Terra pobre como esta Ninguém pôde dar impulso, Sem banco, sem protecção, Fora de todo o recurso !

Vive sempre isolado Mettido nas espessuras Com a memoria no passado, O futuro sem venturas.

JToram todos a sua sorte, Faz pena vêr os lamentos, De pedir dinheiro a rebate. Por não acharem por centos.

Zombem, façam cassoada Da vida do lavrador, Considerem no futuro, A sorte a Parca cortou.

O til por ser do fim, Sempre dá uma esperança, Na consolação dos afFectos, Até chegar a bonança.

íIl B C do faqueiro em tempo de sêccci

(Ceará)

-agora triste começo A manifestar o meu fado, Os meus grandes aveixames, A vida de um desgraçado.

.Bem queria nunca ser Vaqueiro n'este sertão, Para fim de não me vêr Em tamanha ccnfusão.

106 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Com cuidado levo o dia E a noite a maginar, De manhã tirar o leite, Ir ao campo campear.

2)oming08 e dias santos Sempre tenho que fazer, Ou bezerros com bicheira, Ou cavallos p'ra ir vêr.

JEm quanto Deus não dá chuva Logo tudo desanima, Somente mode o trabalho Das malvadas das cacimbas.

Façam a todo o vaqueiro Viver aqui sobre si, Que entrando nesta vida Diga : — Já me arrependi !

Gy&víde é a tyrannia De ura dono de fazenda, Qae de pobre de um vaqueiro Não tem compaixão nem pena.

^omem que tiver vergonha Vaqueiro não queira ser, Que as fazendas de agora Nem dão bem para comer.

I no tGmpo qae nós estamos Ninguém tem opinião; Para um dono d* fazenda Todo vaqueiro é ladrão.

iabora um pobre vaqueiro Em tormentos tão compridos, Quando é no remate de contas Sempre é mal correspondido.

Manúam como a seu negro. Uns tantos já se matando ; Ainda bem não tem chegado, Já seus donos estão ralhando.

ROMANCES E XACARAS 107

iV^ão posso com esta lida, Me causa grande desgosto, Só por vêr como vai O suor d'este meu rosto.

O bom Deus de piedade A mim me queira livrar, Em quanto vida tiver E bens alheios tratar.

Para o mez do Sam João You vèr o que estou ganhando, Quero líagar o que devo, Inda lhe fico restando.

Çuerendo ter alguma cousa, Não ha de vestir camisa, Tisto isto que eu digo O mesmo tempo me avisa.

falham contra os vaqueiros, Nada se faz a seu gosto ; Se acaso morre um bezerro, Na serra se toma outro.

<S'aibam todos os vaqueiros Tratados bem de seus amos, Se elles não têm consciência, Logo nós todos furtamos.

Tudo isto que se vê Inda não disse a metade, Por causa do leite de vacca Se quebra muita amisade.

Fou dar fim ao -4, B, C, Eu não quero mais fallar, Se fosse eu a dizer tudo São capazes de me matar.

108 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Jljorem e chorarão Com grande pena e pezar, Somente mode um mumbica (1) Que dão para so matar.

Zelo, zeloso, Todos sabem zelar, Que de um pobre vaqueiro Sempre tem que fallar.

O Boi Surubim

(Ceará)

Nasceu um bezerro macho No curral da Independência, Filho de uma vacca mansa Por nome de Paciência. Quando o Surubim nasceu J)'ahí a um mez se ferrou Na porteira do curral Cinco touros enxotou. Na porteira do curral Onde o Surubim cavou Ficou um barreiro tal Que nunca mais se aterrou. Na praça da cacimba Onde o Surubim pisou Ficou a terra acanhada, Nunca mais capim creou. Um relho de duas braças, Que o Surubim amarrou, Botou-se n'uma balança, Duas arrobas pesou.

(1) Qarrotiaho de anuo, magro, infezado.

ROMANCES E XA CARAS 109

Fui passando n'um sobrado, Um moça me chamou :

— Quer vender o Surubim? Um conto de réis eu dou.

« Guarde o seu dinheiro, dona, O Surubim não vendo, não.

— Dou um barco de fazenda. De chita e madapolão.

» Este meu boi Surubim E* um corredor de fama, Tanto elle corre no duro, Como nas vargens de lama. Corre dentro, corre fora, Corre dentro na catinga ; Corre quatro, cinco léguas Com o suor nunca pinga. Quando o Surubim morreu, Silveira poz-se a chorar : Boi bonito como este No sertão não nascerá : Eu chamava, elle vinha :

— 0-lé, o-ló, o lá...

A. B C do Boi>PraÍa

(Ceará)

A dois de agosto de quarenta e quatro Nasci no Sacco da Ema; Bebi na lagoa grande, E malhei lá na Jurema.

Beh\& bem assustado Com o medo de meu dono. Passava noites a andar Sem saber o que era eomno.

110 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Como desenganou-se o meu dono De acompanhar a carreira, Foi chamar o João de Souza Da fazenda da Ladeira.

Deu. este sua carreira Em cima do melado, Mais adiante um pouco, Gritou : — Estou enganado.

^lle disse bem vexado E todo se tremendo :

— Aqui sumiu-se o garrote,

0 rasto não estou mais vendo.

i^oi voltando para traz Bastante desconcertado, Por ter perdido a carreira No seu cavalio melado.

(jrande pena a de meu dono Do Souza vendo a chegada ; Perguntou com muita pressa : Cadè os seus camaradas ?

iíindo 08te um pouco calado Sem poder contar a historia, Disse com fé o meu dono :

— Espero ainda a victoria.

1 fizeram nova entrada , Zé de Souza no pedrezão ; João de Souza f«i gritando:

— Lá está o barbatão.

João de Souza por esperto Cavalgava no melado ; José disse com soberba :

— Elle agora vae pegado.

Lá no poço do Pereira João botou-me no raatto ; Logo cliogou Zó de Souza, Foram-mo jíanhar o rasto.

ROMANCES E XACARAS Hl

Mq seguiram legoa e moia, Voltaram desconsolados, Por haver anoitecido E não terem me alcançado,

iVao peguei o barbatão, Disse logo João de Souza. Quando chegaram era casa :

— Corre o bicho até que zôa.

Oh! meu irmão Francisco, Eu estou desenganado ; Não pego o barbatão Wesse cavallo melado.

— Porque o José de Souza Em cima do pcdrezilo Está tambein desenganado Que não pega o barbatão.

— Çaeira tomar um conselho ; Venda ao Miiwuel Teixeira ; Elle se atreve a pegar.

Por sor grande na carreira.

Jteeeha. de Manuel Teixeira O dinheiro todo completo ; Não o podemos pegar. Só elle, por ser esperto.

Sim, senhor, eu vou vender. Por doze mil réis contados, Porque quero ficar livre D'aquelle bicho malvado,

— Todo descançado fiquei. Nunca mais vi a poeira De João de Souza Leal, Zé de Souza da Ladeira.

— Cmn queda não me deram, Nem me piizeram a mão ; Muitas vezes eu vi elles Bolar na poeira do chão.

112 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Voltavam sempre p'ra traz, Contando muitas historias ; Porém sempre fui eu Que tive toda a victoria,

-íTegada d'elle8 em casa ' Muitos queriam ver ;

Vinham chegando de tarde Antes de anoitecer.

^elo commigo, garrote, Sou teu dono — Teixeira, Porque não sou de raça De não te pegar na carreira.

O Filgueiras

(Ceará)

— O que tens, Joaquim Ignacio, Que de cores véus mudaUo ? «Meu cunhado Gouçalinho Foi preso para o Escalado.

O Filgueira assim que soube, Mandou chegar bcu cavallo, E correu á rédea solta Em busca do Cauiagallo. Foi chegando e foi dizendo Com a sua mansidão :

— « Quero o meu sobrinho solto Que o vejo na prisão.»

Responde o cabo da tropa. Por ser homem malcriado:

« Seu sobrinho hado aer solto Depois de eu morto e picado ! »

ROMANCES E XACARAS 113

Eespondeu Joaquim Ignacio Com a sua opinião :

« Meu tio, peça favor A gente, a tapuio não ! »

Puzeram uma pistola No8 peitos de Joaquim Ignacio ; A bala entrou pela frente Foi sahir no espinhaço. Filgueira com esta acção Ficou muito estomiigado, Passou mão ao bacamarte P'ra derrsbar o Escalado. O mulato João de Brito, Mulato de estimação, Nos galhos das marmeleiras Lá deixou seu mandrião.

« O que tenp, José Luiz, Que de trajes vens mudado ? » — Com o repuxo do Filgueira Sahi todo escanícalhado.

Conversa politica entre um corcunda e um patriota

(Ceará)

C. — Deus lhe guarde, meu senhor,

Z*. — Venha com Deus, cavalleiro, Venha, logo me dizendo Se é corcunda ou brasileiro. Vpjo-lhe divisado Jía cabeça um grande galho, Bem me parece ser Da vasante o espantalho,

CANTOS 8

IH CANTOS POPULARES DO BRASIL

C. — Sim senhor, eu soa corcunda E morro pelo meu rei ; Esta divisa que trago E' da sua real lei. Se o seuhor e pjatriota, Provisório ciduiJão, Se falia contra o meu rei, E' judeu, não é christão. E com isto já me vou, N3.0 quero mai.s esperar ; O senhor é jacobino Pelo modo de fallar.

P. — Dême attenção, senhor, Não 80 faça o^foricido ; Um homem apaixonado Não dá prova de entendido. Eu conheço o seu caracter, Não é de tolo e vario. Mostra ser d-i pensante, Ou de um escripturario. Façame a honra apeiar, Venha-me dar um clarão; Só o senhor podo dizer-me O que é a Cojistituição, B também da Independência De Dom Pedro Imperador; Tudo me .explique agora, Eu lhe peço por favor.

C. — Se o senhor falla-me sério, Se nf.o é adulação, Eu lhe direi de que consta A nova Constituição.

P, — O senhor, creia em mim, Que muito sério lho fallo; Eu sou um homem néscio, Não sei onde canta o gallo.

C' — Estes malvados pedreiros, Carbonários da nação, Que por serem caroaUústas

ROMANCES E XACARAS 115

Detestam serem christãos,

Não querem ter rei, nem roque,

B menos religião,

Por isso desprezai^am

O nosso rei Dom João,

A lei d'elles é anarchia

Da tal Constituição,

Captivando deshumanos

Sem ter quem lhes vá a mão ;

Não querem saber de missa,

Menos de sacramento.

Mofam de tudo o que diz

O Novo-Testamento.

Veja, pois, por que rigor Chamam a nós marinheiros, Arrocham de pau e peia ; Morram todos ao chumbeiro. Uns homens nobres em tudo, No sangue e no proceder, De familias illustradas, Muitos d'elle8 vem a ser Filhos de duques, marquezes, De condes e de morgados. Dos infames patriotas Tem sido desfeitiados... Estas feras d'ora avante Só em 8Í maldade encerra ; Desprezam o nosso rei, Que Deus nos deu na terra : Um homem santo e pio, Um refugio de esperança, O nosso Dom João Sexto, Filho da real Bragança. Esta família illustrada, Que o mesmo Deus destinou P'ra seus filhos governarem, Serem de nós supriô... Mais agora estou contente De ver tudo acabado, Uns mortos e outros presos, Outros tantos enforcados.

116 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Adeus, tenha saúde, Creia n'Í8so que lhe digo, Fuja dos patriotas, Que são nossos inimigos ; Já estão-se acabando As malditas rebelliões, Ficando só no Brasil A fé pura de christãos.

P. — Tratemos da Independência.

C. — Isso é um passo muito errante: Dom Pedro no Brazil Não pôde ser imperante.

P- — Porque ? Elle não é Bragança ?

C. — Se o rei ainda é vivo

Não pode haver uma herança.

P, — Já não posso, seu corcunda, Suas loucuras calar, Quer por gosto, quer por força, Ouça- me agora fallar. Diga-me, homem sem brio, Amante do captiveiro, Somos terras, somos gados Que Dom Pedro seja herdeiro ? Quando Deus formou o mundo Qual foi o rei que deixou ? Não deixou um só Adão, De todos progenitor ? D'e8te mesmo Aduo não fez Deus no ceu para seu mando Uma mulher para elle Produzir o género humano? Desses pobres caniponezes Produziu todas nações, Algum dia elles tiveram Fidalguia ou brazões ? Onde foi Bragança haver Esse sangue illnwtrado? Só se foi por outro Adão,

ROMANCES E XACARAS 117

Que por Deus não foi deixado. Só dessa descendência De gentes que Deus não fez, Sahiu toda a jerarchia, Condes, duques e marquez. Abi'e os olhos, homem tolo, Adora o Deus verdadeiro, Aquelle que por nós morreu Como innocente cordeiro. Se um rei é tuo real, Como adulas a Dom João ! E' baixeza no morrer Se formar em podridão; Eesuscitar aos três dias, Assim como resuscitou O rei, filho de Maria.

C. — Eu cá sigo o rei David

Que o mesmo Deus consagrou.

P. — Isto lá eu não duvido, E também por isto estou ; Mas quem era o rei David ? Era ura pobre coitado. Era um simples pastorsinho Do rebanho de seu gado. Que é do nosso rei David ? Agora só ha tyrannos Dissolutos, incivis. De vaidade profanos.

C — Já é tarde, vou andando ; Tenha mão, seu papagaio, Vossê diz cadê as tropas Do coitado do Pinheiro ; E' certo que lá andei, E que delle sou soldado...

P. — Perseguiste teus patrícios Como lobos defamados ; Nas casas que cercaste Também foste carniceiro. Ajudaste a tirar

118 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Vida, honra e dinheiro ; Ajudaste a matar Teus irmãos, mansos cordeiros, Que desgraça, seu corcunda, Entre os mesmos brasileiros !... Desprezar os seus irmãos Como Icfeos carniceiros. Esta injustiça, seu corcunda, Keclamam os céus inteiros...

C. — Meu amigo, estou certo

Do quanto me tem narrado, Já me peza de ter sido Dos meus irmãos o malvado. Eoto o véo do engano, Nova vida eu terei. Constante patriota serei ; Podem contar comigo : Defender a nossa pátria E morra o nosso inimigo !...

A. alforria do cachorro

(Pernambuco)

No tempo em que o rei francez Regia 08 seus naturaes, Houve uma guerra civil Entre os brutos e animaes. N'este tempo era o cachorro Captivo por natureza ; Vivia sem liberdade Na sua infeliz baixeza. Chamava-se o dito senhor Dom Fernando do Turquia; E foi o tal cão pausando De villeza á fidalguia. E d'ahi a poucos annos

ROMANCES E XACARAS 119

Cresceu tanto em pundonor, Que os cães o chamaram logo De Castella Imperador. Veiu o herdeiro do tal Dom Fernando de Turquia, Veiu a certos negócios Na cidade da Bahia. Chegou dentro da cidade, Foi á casa de um tal gato ; E este o receben Com muito grande apparato. Fez entre^ga de uma carta, E elle a recebeu ; Eecolheu-se ao escripíorio, Abriu a carta e leu. E então dizia a carta :

« lllustrissimo Senhor Maurício — Violento — Sodré — Ligeiro — Gonçalves — Cunha — Subtil — Maior— Ponte-Pé. Dou-lhe, amigo, agora a parte De que me acho augmentado, Que estou de govei-nador N'e8ta cidade acclamado. Eemetto-lhe esta patente De governador lavrada ; Pela minha própria lettra Foi a dita confirmada. « Ora o gato, na verdade, Como bom procurador, Na gaveta do telhado Pegou na carta e guardou, O rato como malvado, Assim que escureceu, Foi á ga/eta do gato, Abriu a carta o leu. Vendo que era a alforria Do cachorro, por judew, Por ser de má consciência, Pegou na carta e roeu.

120 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Koeu-a de ponta á ponta, E pôl a em mil pedacinhos, E depois as suas tiras Eepartiu-as pelos ninhos. O gato, por occupado Lá na sua Relação, Não se lembrava da carta Pela grande occupação. E depois se foi lembrando, Foi caçal-a e não achou, E por ser maravilhoso D'isto muito se importou.

O Lucas da Feira

(Versão de Sergipe)

Adeus, terra do limão, Terra onde fui nascido ; Vou preso para a Bahia, Levo saudades commigo. Eu vou preso pr'a Bahia, Eu vou preso, não vou só, Só levo um pezar commigo : E' da filha do major. Eu vou preso p'ra Bahia. Levo guarda e sentinellas. Para saber quanto custa Honra de moças douzollas. Estes sócios meus amigos Do mim não tèm que dizer; Que por eu me vôr perdido Não boto outra a perder. Estes sócios meus amigos A mim fizeram traição ; Ganharam o seu dinheiro,

ROMANCES E XACARAS 121

Me entregaram á prisão. Meu3 amigos me diziam Que deixasse de funcção, Que o Casumbá por dinheiro Fazia as veze.s do cão. Vindo eu de lá da festa De Sam Gonçalo dos Campos, Com o susto do Casumbá Cahiu-me a espada da mão. Já me quebraram o braço, Já me vou a enforcar; Como sei que a morte é certa Vou morrendo devagar. Quando na Bahia entrei Vi muita cara faceira ; Brancos e prelos gritando :

— Lá vem o Lucas da Feira ! Quando eu no Rio entrei Cahiu-me a cara no chão; A rainha veio dizendo :

— Lá vem a cara do cão.

O Calangro

(Sergipe)

Calango fez um sobrado De vinte e cinco janellas Para botar moças brancas, Mulatas côr de canella.

Calango matou um boi, D'elle não deu a ninguém ; Lagartixa respondeu :

— Calango fez muito bem.

O calango foi á feira Em traje de gente rica ; Lagartixa respondeu .•

— Calango, vossê lá fica.

CANTOS POPULARES DO BRASIL

O Calango íoi á festa Montado n'uma leitôa ; Lagartixa respondeu ;

— Calango não é pessoa.

Calango estava deitado Na proa do seu navio ; Lagartixa respondeu :

— Calango, tu és vadio.

Calango sahiu á rua Montado n'uma perua ; Lagartixa respondeu :

— Vejo que a tola está núa.

Calango foi convidado Para ser juiz de paz ; Lagartixa respondeu :

— Calango, veja o que íaz.

Calango foi á Bahia Com seu barco de feijão ; Lagartixa respondeu :

— Cada bage é um tostão.

O calango é bicho porco, lí^nm folguedo quiz entrar ; Lagartixa respondeu :

— Calango, vai-te Javar.

Calango foi convidado Para ser um presidente ; Lagartixa respondeu :

— Calango, me traz um pente.

Minha gente, venha vêr Cousa de fazer horror : Lagartixa de chinelas, Calango de palotô.

ROMANCES E XACARAS 123

O Sapo do Cariri

(Sergipe)

No sertão do Cariri (1) Havia um sapo caaado, Na sêcca de oitenta e nove Quasi que morre torrado.

Determinou a mudar-se Levando comsigo a Gia, Descendo cabeça abaixo Em procura da Bahia.

E' certo que vae pejada Dona Gia de Menezes, Que já vae a completar A conta de nove mezes.

E deu no pé de uma serra Nos mares de Acaracú, Logo alli á tardesinba Deu na casa do teyú.

Bateu na porta do dito : «Deus voa guarde, meu Senhor, Yasmincê, por (/aridade, Dá-me um rancho por favor.»

— Não, senhor, não pôde ser, Pois a casinha é peqeena, Não havemos de caber. Ao demais, pelo que vejo. Parece que não vem só, Pelo trem que vem trazendo Também traz a sua avó.

«Não, senhor, a rtinha avó Ha muito que já morreu ;

(1) Sertão do Ceará, chamado também Cariris Velhos., por opposifSo aos Cariris Novos, na Parahyba do Norte.

CANTOS POPULARES DO BRASIL

Esta que trago aqui E' a mulher que i)eu8 me deu. D'Í8to mesmo me arreceio De andar a riba e abaixo, Com medo qu'ella não pára Antes que chegue ao riacho.»

— Visto isto, meu senhor, Entre vasmincê p'ra dentro, Keeolha-se áquelle quarto, Faça lá seu aposento.

E precisa-se saber Da senhora D. Gia Se nos promette socego, E não muita gritaria.

«Sim, senhor, senhor teyú, Também sabemos da solfa, Mas não usaremos d'ella, Porque a casa não é nossa.»

Desce o teyú as escadas P'ras camarinhas de baixo ; Dão dores em D. Gia, Que pare um sapinho macho.

«Marido, você não sabe, Que por direita rezão. Deve o teyú ser padrinho D'e8te nosso rapagão ?»

«Bom, muito bom discurso, Minha mulher, D. Gia, Hei-de fazer o convite Assim que amanheça o dia.M

— Bons dias, Sid. D. Gia, Como 80 foi de dormida ? aEu, bera, amanheci parida De um menino mui perfeito, Que pelo chorar, parece,

Ser solfista de preceito.»

ROMANCES E XACARAS 125

«Não lhe servindo de incommodo, Nem também de enfade. Quero que vasmincê seja O bom do nosso compade.»

— Eu só para o seu serviço Muito gostoso me acho ; Mas é preciso saber

Se o menino é fêmea ou macho.

«B' macbinho, meu Senhor, E p'ra cantar minuete Por musicas e solfejos Elle é todo sem defeite.»

— A comadre não precisa D'alguma ama de leite,

E também d'um panicum Onde este menino deite? —

«Meu Senhor, ama de leite Isto não lhe dê enfade, Que quando faltar o meu, Suprirá o seu compade.»

— Oh ! comadre, e o meu compadre Tem peito que nem mulher? «Batendo nas costas d'tílle,

Da leite como qualquer.»

— Vasmincê, me dê licença. Que o sol está esquentando, E vou aqui pela estrada Dar um giro passeando. —

«Vasmincê, manda e não pede,» Eesponde a gia e o sapo. Deus o livre do cadello Que o dsseja pôr no papo.»

Sahe o teyú por alli Ligeirinho se arrastando. Escutando com bem medo Alguém que andasse caçando.

126 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Deu logo com um vaqueiro De muito corta jornada, Que lhe deu com o rastinho Muito fresco da estrada.

Escutou e fez sentido, Atrepou depois num pá;i, E tocou a sericoria Parecendo birimbáu.

O cachorro quando ouviu Que o tom ei"a do senhor, Botou-se por alli fora E n'um instante chegou.

Mestre sapo mais a gia. Que estavam cantarolando, Não sabiam do barulho Que o teyú estava arranjando.

Mas o cachorro damnado Dá com o sapo cururú, E endireitou-se para elle Julgando qu'tíra o teyú.

A gia sahiu á frente Dizendo : «seu presumido ! Não me mate meu marido, Tenha pena d' um sapinho. Que lhe faltando seu pai Morre á mingua, coitadinho.»

«Elu não o mato, senhora, Não é por dó delle ter, E' por nojo delle haver, Que um diabo como este Só se levando a cacete ; Pois tem a pello tão grossa Que por ella verte azeite.»

Assim succede a quem anda Por casa que não é sua, Mesmo sendo de ccmpadro Anda com os quartos na rua.

ROMANCES E XACARAS 127

O Bapo de grande susto Ficou meio adoentado, Não disHe nada ao teyú, Mas ficou desconfiado.

«Marido, este seu tnal Parece ser perigoso ; Precisa tomar purgante De raiz de fedegoso.»

«Mulher, lá nos Cariris Entendia alguma cousa ? «Marido, nos Cariris, Em mim tinham sua fé, Depois que curei de olhado O formoso jacaré.

«Faça seu apontamento Em seu jniso perfeito, P'ra depois eu não ficar Embaraçada e sem geito.

«Mulher, por meu testamento Não lhe bata este papinho, Deixo as solfas p'ra você A boceta p'r'o sapinho.

«E, marido, o seu enterro ? «O meu enterro, mulher, As formigas e urubus O farão como quizér.

Sahiu a gia p'ra fora Caçar remédio p'r'o sapo ; Encontrando os urubus, Quasi cahiu no buraco.

aMarido, era v^erdade O que você me dizia, Perto do buraco estava Reunida a clerezia; O que digo não é peta, Todos de chimarra preta

128 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Crivada de diamantes, E por uma banda e outra Sessenta e dois estudantes. • E aofide ha um abade Do tamanho de um peru, Que é o Félix do Pedrão.»

«Félix do Pedrão, mulher, E' homem muito mofino, Que sem que veja dinheiro, Não pega em corda de sino.»

Tendo o sapo melhorado Foi-se embora com a Gia, Com medo d'outro barulho Que o teyú trazer podia.

N'Í8to o teyú apparece ;

« — Dews vos salve, meu compadre;

Cá pela sua casa

Houve alguma novidade ?

E o meu afilhadosinho Já toca solfa no coro ? Vasmincês n'aquelledia Fizeram praça ao cachorro.»

O sapo qnando isto puvio, Qu'era uma pabulage, Aqui mesmo foi descendo O surrão da matalutage, Foi levando mãos á riba Puchou pela parnahyba.

«Ah ! seu cão I seu pé de gancho.» « — Este é o pago que me dás De ter te dado o meu rancho ? «Ah : cão I ah ! cara de fome ! Atira, atira, seguro, Que tu atiras em home.»

«Acuda, Siá D. Gia, Não 8( ja tyranna, ingrata, Veja bem que estou por baixo, O cão do teyú mamata.»

ROMANCES E X AC ARAS 129

« Marido que mofineza!... Puxe a faca da maneira ; Níio se esqueça onde ella está Eu a botei n'a)gibeira.ji)

«Esta mulher D. Gia E' mulher muito faceira, Sempre aodase lembrjindo Da pequena da maneira.»

E puxou a mão da faca, Sahiu o teyú ferido. A (ria ficou com queixa De o não matar o marido.

Foram tratar de fazer Morada de pedra e cal, Mas sem cuidar de saber Que isto era p'ra seu mal.

Cahiu a casa Como esparrella. Morreram todos De dentro d'ella. Sahiu o sapinho Por um buraquinho.

A velha Dizuiiga

(Versão de Maricá, Rio de Janeiro)

Yelba Bizunga, Casai vossa filha, P'ra termos um dia De grande alegria. « Eu, minha filha, Não quero casar ;

CANTOS

130 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Pois não tenho dote Para a dotar. Sahiu a Preguiça, (1) De barriga lisa :

— Case a menina, Quo eu dou a camisa. « Quem dê a camisa De certo nós temos ; Mas a saia branca, D'onde a haveremos? Sahiu a Cabrita

Do matto manca :

— Case a menina. Darei a saia branca.

« Quem dê saia branca De certo nós temos ; Mas o vestido, D'onde o haveremos? Sahiu o Veado Do matto corrido :

— Case a menina. Que eu dou o vestido. <i Quem dê o vestido De certo nós temos ; Porem os brincos, D'onde os haveremos? Sahiu o Cabrito Dando dous trincos :

— Case a menina, Eu darei os brincos. « Quem dê os brincos De certo nós temos ; Mas falta o ouro, D'oMde o haveremos ? Sahiu do matto Roncando o Bezouro :

— Case a menina, Qu'eu darei o ouro.

a Quem nos dê o ouro

(1) Animal.

ROMANCES E XACARAS 131

De certo nós tomos ; Mas u Cdzitiheira, D'onde u haveremos? Sahiu a Cachorra Descendo a ladeira :

— Caeai a meniua, Serei cozinheira.

« Quem seja a cozinheira El certo ja temos ; Porém a mucama, D'onde a haveremos? Sahiu a Trahira (l) De baixo da lama ;

— Casai a menina, Serei a mucama.

« Quem seja a mucama De certo nós temos , Porém o toucado, D'onde o haveremos? Sahiu o Coelho Todo embandeirado:

— Casai a menina, Darei o toucado.

« Quem dê o toucado E' certo que temos ; Porém o cavallo, D'onde o haveremos ? Sahiu do poleiro Muito teso o Gallo :

— Casai a menina, Que eu dou o cavallo. «Quem dê o cavallo De certo nós temos : Porem o eellira, D'oTide o haveremos? Sahiu um burro Comendo capim :

— Casai a menina, Darei o sellim.

(1) Pequeno peixe.

132 CANTOS POPULARES DO BRASIL

« Quem dê o sellim . E' certo que temos ; Porém falta o íVeio, D'onde o haveremos? Sahiu uma Vacca, Pintada no meio : Casai a menina, Eu darei o freio. « Quem nos dê o freio Sim, senhores, temos ; Poi'ém a manta, D'onde a haveremos ? Sahiu a Onça, Co'a bocca que espanta: — Casai a menina, Qne darei a manta. « Quem nos dê a manta, E' verdade temos ; Mas quem será o noivo ? D'onde o haveremos? Sahiu o Tatu Com o seu casco goivo: — Casai a menina, Que eu serei o noivo. «O noivo tratado De certo nós temos ; Porém o padrinho, D'onde o haveremos ? Sahiu o Batinho Todo encolhidinho : — Casai a menina. Serei o padrinho, «Quem seja o padrinho De certo nós temos ; Porém a madrinha, D'onde a teremos ? Sahiu a Cobrinha, Toda pintadinlia : — Casai a menina, Serei a madrinha. «Quem seja a madrinha De certo nós temos ;

ROMANCES E XACARAS

Mas quem pague o padre, D'onde o haveremos ? Sahiu a Cobrinha, Que era a comadre : — Casai a menina, Pagarei ao padre. Cada um dando o que pôde Todos se arrumaram: Chamado o padre, Logo se casaram. Caiiindo o sereno Por cima da gramma, Debaixo da pedra Fizeram a cama, Se divertiram, Cantaram, dançaram ; £ diz o Lagarto Que também tocaram. Se é verdade ou não. Isso lá não sei ;

O que me foi contado

Eu também contei.

O que sei só é

Que tanto brincaram,

Que todos também

Se embebedaram.

Até eu também

Me achei na foncção,

E p'ra casa tnice

De doce um buião.

133

A TB C de Amores

(Rio Grande do Sul)

.Aqui te mando, berazinho, Um A B C de amores. Para que n'elle tu vejas Os meus suspiros e dores.

134 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Anda cá, meu doce bem, Anda vér, prenda querida, As queixas que tu me formas Nos passos da minha vida.

J9em conheço, prenda minha, Que a vida me deixaste, Por sentires gi-ande falta D'um coração que me roubaste.

Cadeias foram teus olhos, Grilhões os teus carinhos. Que prenderam meus affectos Entre os mais duros espinhos.

De cada vez que te vejo, Se me dobram as prisões ; Eu juro me teres roubado Duzentos mil corações.

^rapenhei-me a experimentar A dureza do teu peito; Nasci forro, sou captivo, Sou leal e até sujeito.

Feriste meu coração Para n'elle seres ouvido ; Ficaste sendo senhora. Eu fiquei sendo captivo.

Gloria dos tempos passados, Que tão depressa fuj^istes ! Que te faziam meus olhos, Que vos fazem andur tristes ?

7/e bem que chorem meus olhos De uma dôr que os atormenta ; Um sensível coração, Pelos olhos arrebenta.

7de, meus olhoH, nadando N 'estas a<^ua8 que choraes ; Amor de meu coração, Quando nos veremos mais ?

ROMANCES E XACARAS

iagrimas, cabi, eahi, fíelatai a minha dôr ; Pois um triste coração Não tem outro portador.

3/aÍ8 me valia morrer Quando em ti puz o sentido ; Não pensei que tantas maguas Me tivessem combatido.

Não abatas tanto, ingrata, Um triste, afflicto, queixoso; Pois seja da minha vida Fim, tormento rigoroso.

O rouxinol quando canta Forma queixas de sentido; Eu também me queixarei Por ser mal cori-espondido.

Peço-te, bemzinho amado. Que me faças um carinho, Que vivas na esperança Qu'inda hei de sor teu bemzinho.

Çuem vir a enchente no mar, Não lhe cause confusão, Que são aguas dos meus olhos Fontes do meu coração.

Rebenta, minh'alma afflicta. Que está ferido o meu peito, Pelo muito que eu padeço. Menina, por teu respeito.

^Suspenderei os meus prantos, Cessarei já de chorar, Já que me coube por sorte Querer bem e não lucrar.

Tenho tão pouca ventura Na sorte de te querer, Que te peço por esmola Que me deixes padecer.

135

136 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Fivo tão pensionado, Que não sei de meus cuidados, Se padeço ou se suspiro, Se choro de maguado.

-Corando só de continuo Por viver tão retirado, Na tua ausência, vidinha, N'este triste, afflicto fado.

tombem embora de meu pranto, Pois a mim fizeste guerra, Outro não acharás Em todos os bens da terra.

O Hl por ser pequenino Também goza estimação ; Estou esperando a resposta Que venha da tua mão.

Chula a três vozes

(Ceará)

Lá nos campos de Ccndrêa, Meu corpo vi maltratado ! Tudo isto experimentei Só por ser seu bem amado.

Vera aos meus braços, Meu bem amado. Vem consolar Um desgraçado.

Se eu não te quero bom Deus do céo mo não escute ; Asostrellas me não vejam, A terra rac não sepulte.

ROMANCES E XACARAS 137

Vem aos ineus braços, Meu bem amado, Vem consolar Um desgraçado.

lí'aquelle primeiro amor Que no mundo teve a gente, O amor cravado n'alma E' lembrado eternamente.

Vem aos meus braços, Meu bem amado. Vem consolar Um desgraçado. (1)

Ceará

— Aqui estou, minha senhora, Com dôr no meu coração, Bera contra a minha vontade Fazer-lhe esta citação. «Também tenho minha casa Mui da minha estimação ; Tudo darei á penhora, Porém as cadeiras não. «Também tenho minha cama Coberta de camelão, A barra de setim nobre, O forro de bom fustão : Tudo darei á ])enhora, Porém as cadeiras não, «Também tenho cinco escravos, Três negros e dois mulatos, Mui da minha estimação ; Tudo darei á penhora, Porém as cadeiras não.

(1) Não é estrictamente anonyma; tem origem litteraria; mas anda muito popularisada.

138 CANTOS POPULARES DO BRASIL

—Venha cá, minha senhora, Deixe-se de tantas besteiras, Que no mundo não falta ourives Que lhe faça outras cadeiras.

Afeu beixizinlio, diga, diga.

(Sergipe)

— Meu bemzinho, diga, diga, Por sua bocca confesse Se você nunca já teve Quem tanto bem lhe quizesse. «Se é verdade que não tive Quem tanto bem me quizesse, Também nunca possui Quem tantos tratos me desse; — Os trabalhos qn'cu te dei, Vossê mesmo os procurou, Que da casa de meu pae, l)e lá vossê me tirou. — Se de lá eu te tirei Foi por me ver perseguido ; Quantas e quantas vezes Não me tenho arrependido! , « Que te arrependes, amor ? J)'este teu génio tão forte? Não prometteste ser firme Até na hora da morte ? Até na hora da morte Sentirei ingratidão, Tendo sido an a dona Roubada d'este ladrão !... Nunca comi do ladrão, Nem pretendo comer ; Poderei comer agora Debaixo do seu poder

ROMANCES E XACARAS 139

— Debaixo de meu poder. Tu terás grande valia; Sahindo d'elle p'ra íóra, Não terás mais fidali^uia.

« Esta fidalfçuia minha Nunca ha-de se acabar ; Qu'eu Com gente mais somenos Nunca hei do me pegar.

— Pega, então, meu amor, Procurando opinião!

Que estas meninas de agora Não buscam estimação. « Não procura estimação Só aquella que é pobre ; Uma dona, como eu, Só procura gente nobre.

— Goza, meu bem, goza a vida, Qu'eu, a noite, vou te vêr, Dando suspiros e ais

P'ra não te ver padecer.

^ari»nte do nio Orande

— Meu bemzinho, fii^Ia, falia, Por tua bocca confessa Se algum dia tu tiveste Amor que mais 1e quizesse. Mas confesso que não tive Quem mais trabalho me desse. « Se mais trabalho te dei, Por tua mão procuraste, Que do casa de meus pães Bera raivosa me tiraste. Se raivosa te tirei. Por me vêr tão perseguido, Quantas e quantas vezes Bem me tenho arrependido !

140 CANTOS POPULARES DO BRASIL

— Porque te arrependes, ingrata, Tendo eu um génio doce? Prouvera que eu fosse amoroso, Kão andavas tão desgostosa. Que desgostosa tu vives, Vivendo d'esta sorte ;

Te prometto lealdade, Lealdade até á morte. « Pois eu sinto e sentirei, Sinto mil ingratidões ; Siuto ser uma dona E roubada dos ladrões. Eu dos ladrões nunca fui, E te juro de não ser, Emquanto viver sujeita Debaixo de teu poder.

— Debaixo de meu poder Foi que tiveste valia; í Que sabindo para fora Acabas a fidalguia.

« Fidalguia sempre tive. Que d'isto me bei de gabar, Que com gente d'outra esphera Não me bei-de misturar.

— Misturar bei-de por força. Que isto vem de geração ; Que ae meninas d'este8 tempos Kão se dão á estimação.

« Estimação não se dão Só aquelhie quo são pobres; Que uma rica como eu Só procura gente nobre.

— (jíente nobre bei-de por força, Que isto vem por festejar ;

Que o peor é dar-lbe um couce, E o melhor vem a ficar.

Já sei que queres dizer... Queres dotninar o meu corpo, Isto me dás a entender.

ROMANCES E X AC ARAS 141

(Sergipe)

Sapateiro novo,

Aíe faz um sapato

De sola bem íina

P'ra danrar o sapo. '

Bum...

— Sapo cururú ,

Da beira do rio !

(I Não me bote n'aí:!^ua,

Que eu morro de frio.

Bum . . ,

— Sapo enrurú De Dona Thereza!

« Me corte o cabello, Me deixe a belleza.

Bum . . ,

— Sapo cururú,

Que fazes lá dentro ?

<f 'Stou calçando as meias

P'ra meu casamento.

Bum, , ,

— Sapo cururú

Diz que quer casar ?

« P'ra ter minha mulher

P'ra me regalar.

Bwn ,

CANTOS POPULARES DO BRASIL O íIl It O dia ]%Ioça ciueimada

(Ceará)

A trinta do mez de outubro Do anno de trinta e um, Ardi em chammas de fogo Sem haver remédio algum.

^i ! de mim triste coitada, Que truce tão cruel sina De passar pela desgraça íí'este mundo tão menina !

^em conheço de certeza Que foi por Deus esta morte ; Assim quiz o creador, Permittiu a minha sorte.

Cuando no mundo nasci Foi para morrer queimada ; De Deus a sina no mundo Não pode ser revogada.

Deus como de piedade Tenha de mim compaixão ; Foi tal a minha desgraça Que morro sem confissão.

EvL conheço de certeza Que só por Deus poderia Eu acabar d'esta sorte, Morrer cora tanta agonia.

i^azendo eu umas papas Para um menino comer. Oh I que caso tão cruel I A mim veio acontecer

Gritei por todos de casa No estado em que me puz, Pedindo que mo acudissem Pelas chagas do Jesus.

ROMANCES E XACARAS 143

7/bje por me vèr assim Desenganada da vida Já desejo que a minha alma De Deus seja recebida.

Jíí me dispuz a morrer, Para mim a morte é nada; Tendo a «;loria, me não peza De ter morrido queimada.

Xagrimas por mim níío botem Que remédio me não dão, Antes me recommendem A virgem da Conceição.

JlZorrendo estou satisfeita. Ninguém de mim tenha dó ; Tendo eu a salvação Lá no céo estou melhor.

^ão tenho mais que pedir, Que já mais fallar não posso ; Quem n'eete ABC pegar iíeze-me um Padre -Nosso.

Oh bom Deus de piedade, Jesus Christo Redemptor, Tende compaixão de mim Por vosso divino amor !

Pelos meus grandes peceados No mundo fui desgraçada, Mas pelo amor de Maria Serei nos eéos perdoada.

Çue dôrea! que agonias Por me vèr n'esta figura ! N'aquella matriz do Icó Foi a minha sepultura.

iíolando na minha cama Com anciãs e agonias Sem poder ter um allivio No espaço de oito dias.

144 CANTOS POPULARES DO BRASíL

/Soberano rei da gloria, Filho da Virgem Maria, No meu ultimo suspiro Queiraes ser a minba guia.

Tenho a certeza, Senhor, Que me não hei-de perder ; Vos peço que não deixeis A minha alma padecer.

"Kou dar fim ^0'A B C Que não posso mais fallar ; Me ajudem a morrer Que me quero retirar.

^rorando ficarão todos, Eu me vou bem consolada Na esperança que a minha alma Na gloria terá eatrada.

J^angada já estou do munJo, Eu não quero mais viver, No artigo em que me acho Só com Deus me quero vêr.

O til é letra do fim ; Findo em pedir também A Deus que me dê a gloria. Para todo o sempre. Amen.

O .V B O do A.rauJo

(Ceará)

Ah. I mundo falso, enganoso, Em ti não ha que fiar; Ao que fôr mais exaltado Maior queda íazes dar.

ROMANCES E XACARAS 145

^em 86 viu, melhor se vê ; Quem viver melhor verá ; Ab voltas que o mundo deu E as que tem para dar.

Cuide cada um era si, Kão queira ao alto voar, Que o fogo da soberba As azas lhe ba-de queimar.

Do que fui e do que sou Bem me desejo esquecer. Ao lembrar me do que fui E do que virei a ser.

i^mbarquei com vento á popa Para no mar navegar ; Sem levar agulha e prumo Pelos baixos vim a dar.

Fui solteiro e sou casado, Vivi com muita alegria. Por se me trocar a sorte 'Stou posto sem serventia.

C^astei a min na fazenda Na fúria da mocidade Servindo a bens communs E a uma Magestade.

Jloumm grande

De um grande governar Se não tiver direcção Sem respeito ha-de acabar.

iembrando-me do qne íui, Muito diíferente estou ; Fui alegre, hoje sou triste ; A sorte se me mudou.

J/orto já me considero, Ter vida mais não queria ; Só se eu tivera vista Algum tempo ou algum dia.

CANTOS 10

146 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Nsio são lembrados ca males Na primavera dos annos; Só 86 me lembram delictos, Não se me esquecem os damnos.

Çuem se viu como eu me vi Tão respeitado e querido ! Hoje de poucos lembrado, E de muitos esquecido !

despeito, honra, justiça No dinheiro é que se encerra ; Quem tem isto já tem tudo, Porém tudo isso é terra.

/Suspiros que vem de longe Só servem de maltratar ; Olhos que de vêr não servem Que sirvam para chorar.

Tu me viste, e tu me vês No estado em que estou ; Isto te sirra de exemplo, Que quem eu fui já não sou.

Fanglorias e passatempos, Tudo neste mundo passa ; Descem uns e sobam outros Conforme a sua desgraça.

Zombe pois de mim o mundo, Que eu d'elle não quiz zombar, Adquirindo paixões Para com ellas cegan

O til não fique de fora, Entre já sem dilação ; Venham vêr o Araújo Que já teve, e hoje não.

ROMANCES E XACARAS 147

A. B C de um homem solteiro

(Ceará)

i4cho-rae com vinte annos Sem tenção de me casar ; Faço este ABC Para n'elle me explicar.

Bqvo. vontade que eu tenho ; Olho norte, e vejo sul ; Bem casado que eu ando Co'a8 moléstias que possuo.

Casarei -me com certeza Se vossê me sustentar De carne, farinha e peixe, B do mais que precisar.

Dq ir a bailes e comedias Descanee o seu coração, Que de casa me não sae Nem que venha um seu irmão.

E\x á missa e á egreja Sempre lhe hei de levar, Quer de pé, quer de cavallo, Como Deus nos ajudar.

JPaço-lhe tudo, a saber Emquanto remédio ha ; Se ha-de chorar sem remédio, Melhor será não casar.

^omem que falle a verdade Vossê não ha-de encontrar; Todos querem passatempo, E vão atraz de enganar.

148 CANTOS POPULARES DO BRASIL

N&6 sextas e nos sabbados NÓB havemos de guardar, B nos dias de preceito Nos havemos jejuar.

i2êde sempre me ha-de dar Se quizer ter boa fama, Que sou um homem doente, Não posso dormir em cama.

>Saia sempre lhe hei -de dar, Isto não lhe dê cuidado; Não serão quatro nem cinco, Que não sou tão abonado.

O cão e o urubu

(Ceará)

C. — Guarde-o Deus, seu urubu, E a sua nobre pessoa, Que viva co'o papo cheio Passando uma vida boa.

Z7. — Certamente vou passando Uma vida mais suave; TJIlimamente lhe digo Já vi anno íávorave. Mas já estou aqui temendo Quando chegar a invernada ; Cahindo a chuva na terra, A fartura está acabada.

C. — -Não me dirás, urubu,

Como acham vossês rez morta Nem que esteja escondida Lá por dentro de uma grota?

ROMANCES E XACARAS 149

U. — Eu te direi, cachorro,

Do modo que nós achamos, Avoando pelos ares De lá com a vista bispamos. Depois de termos bispado Fazemos uns peneirados, Fechamos de lá as azas, Traz! na carniça sentados.

<7. —

Urubu tu te agastaste ?

U. — Certamente me agastei,

Pois sou um pássaro brioso ; Se eu sou esfomeado, Tu és um bicho guloso.

A.S lagartixas

(Gamella da Barra Graade— Alagoas)

Eu vi uma lagartixa Tocando n'uma viola ; O calango respondeu : — Oh ! que cabrita paixola !

Eu vi outra lagartixa Atrepada n'um sobrado, Repimpada na cadeira Com seu rabo pendurado.

Eu vi outra lagartixa Na feira da Macahyba, Botando torrões abaixo. Botando cargas arriba.

Eu vi outra lagartixa Atrepada no coqueiro, Botando cocos abaixo Para quem fosse primeiro.

SEGUNDA SERIE

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS

Origens : do portuguez e do mestiço ; transfonnações pelo mestiço

BAILES, CHEGINÇAS E REISA.DOS 153

Baile <l£i Liuvadeira (1)

(Bahia e Sergipe)

SAHB A !• LAVADEIRA {cantãndo.)

Antes que o sol saia, Hei de madruf^ar Nas margens do rio, Onde vou lavar.

Passarei contente, Muito divertida. Com as mais companheiras Da mesma lidu.

Aqui ficarei Bem acoramodada, Livre do calor, E da enxurrada.

(1) Os festejos próprios das janeiras era Sergipe, e em ge- ral em o norte do Brasil, divídera-se em três grandes categorias : Bailes Pastoris, Cheganças, Reisados.

Os Bailes Pastoris são feitos por meninos de ambos os sexos, ou, raramente, por moços e mogas, ainda na flor da edade, e das melhores familias.

A letra dos diversos Bailes Pastoris, que temos visto, não é popular. São pastiches feitos por poetastros e d'elles existem varias coUecgÕes, quasi todas impressas na Bahia. No Aracaju imprimiu-se não ha muito um volume inteiro, devido á penna do Sr. Severiano Cardoso, litterato e poeta alli muito conhecido.

Nosso querido amigo Dr. Mello Mordes Filho, que é um estu- dioso do Folk-lore brasileiro, em seu livro Festas do Natal, re- produziu os Bailes Pastoris das Quatro Partes do Mundo, do Meirinho, da Lavadeira, do Elmano. Conservamos systematica- mente sempre taes produc;ões fora de nossa coUectanea, por- que não são composições anonymas, não são genuinamente popu- lares. Resolvemos, porém, de taes Bailes incluir n'esta edição — o da Lavadeira, por nos parecer o melhor de todos e por ser muito representado em Sergipe, onde tivemos occasiSo de o vêr.

As Cheganças são funcgSes, representadas sempre por grandes grupos de individues, e referentes a guerras marítimas, aborda-

154 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Neste cantinho Ficarei contente, Dando logar Se vier mais gente.

SAHE A 2^ LAVADEIRA {cantãTldo)

Eu vou caminhando, Que o sol está alto, Eu não sei se corro, Eu não sei se salto.

Porém já lá vejo Outra companheira. E' Damiana Que veio primeira,

FALLA A 2a LAVADEIRA PARA A 1*

Deus vos salve, maninha, Aqui sejaes bem chegada, De perigos e de sustos De tudo sejaes guardada.

gens, luctas de mouros e christaos, etc. O elemento navegador e maritimo é n'ellas o caracteristico.

Só podemos coUigir até hoje duas únicas — Os Mouros, Os Marujos.

Cremos que devem existir outras ; mas só aquellas tivemos ensejo de ver em scena.

Os Reisados são folganças muito variadas. O caracteristico d'elles é terem sempre, no fim de varias cantigas e danças, o brinquedo do — Bumha-meu-Boi . Ordinariamente nos Reisados cantam-se xacaras antigas, velhos romances, novas canções sa- tyricas, chulas, etc. Em Sergipe as principaes letras que ouvimos em Reisados foram as do José do Valle, ao António Geraldo, do Cego (pag. 30 d'este livro) da Pastorinha 'pag. 26) de Iria a Fi- dalga (p&g. 23) do Catangro (pag. \2\í da. Harca-Bella, da. Bor- ioleta, do Maracujá, do Pica-Páo, etc. Como está-se a vèr,algu- mas d'e8tas letras sao xacaras de origem portugueza, que estão na secçSo própria n'e8te livro. A ultima scena de todo Reisado é, como dissemos, o Bumba-meu-Boi, cujos versos damos em nosso texto.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 155

FALLA A 1* PASTORA

Deus vos salve, e tambom vós, De que chegaes tão cançada? Por vires hoje mais tarde E' que estaos tão fatigada ?

FALLA A 2* Pastora

Na verdade, Damiana, Que muito tarde acordei, E como vim na carreira, Muito cascada cheguei.

FALLA A 1* PASTORA

De que pois então corrias ? Viste acaso alguma fera, Ou algum lobo faminto, Ou viste tremer a terra ?

FALLA A 2' PASTORA

Tenho andado sosinha, Por Dosques, penhas e valles : Entre animaes ferozes, Mas sempre livre de males,

E assim, oh Damiana, Dou graças ao Creador, Pela mercê que me fez De me dar tanto valor.

Cantam as duas Lavadeiras, seguindo para uma horta a estenderem roupa.

Pastorinhas, grande dieta Hoje todo o mundo alcança. Baixou já dos Céos a terra, Fructo da nossa esperança.

CANTA BENTA, passeiando na horta.

Grande pensão, grande lida, Eu tenho na horta bella. De regai a, de cuidai- a. Que não dê o bicho nella.

156 CANTOS POPULARES DO BRASIL

VOLTA

Quem quer comprar Verduras mimosas, Emquanto estão »

Mui cubiçosas ?

BENTA para as lavadeiras :

Grande confiança é a vossa,

De estenderem roupa nesta horta.

{Joga com a roupa.)

CANTA BENTA

Quem quer comprar, etc.

8AHB A 4' PASTORA, cantandoí

Ando procurando Se alguém me viu O meu carneirinho, Que me fugiu.

Por mais que eu procure Por todo caminho, Não posso encontrar O meu carneirinho.

Do meu curralinho Stulto fugiu, Não sei como o lobo O não enguliu.

{Entra na horta de Benta, apanha o carneiro e canta)

Lá está na horta Do Benta hortaleira ; Como está cançado Da grande carreira !

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 167

BENTA PARA A 4* PASTORA

Pastorinha, como entraste Aqui, sem minha licença? Olha que esta ousadia Já me causa grande oífensa.

4' PASTORA

Ouve-mo fallar primeiro.

BENTA

Desculpas não tens que dar, Ide-vos deste lugar.

4* PAbTORA

Benta, cá comigo, Falle com modo attento, Pois eu não hei de soffrer De qualquer, atrevimento.

BENTA

Atrevimento, Filena ! Ignoro este tratar ; Não queiras, pois deste modo A minha fúria irritar.

4* PASTO a A

Ora dai-me o carneirinho, JNão é vosso, pois é meu.

BENTA

Também tenho parte n'elle Pelas hervas que comeu.

4* PASTORA

Como isto pôde ser, Agora me rio eu. ..

158 CANTOS POPULARES DO BRASIL

BENTA

Ora isto não se atura, Eu estalo de paixão.

4* PASTORA

Assim é, bella menina, Pelo que diz tem razão ; Ora dai -me o carneirinho, E basta de mangação.

BENTA

Levai, pois, o carneirinho, Já d'elle me não importa ; Só quero saber por onde Vós entrastes nesta horta.

4» PASTORA

Na carreira em que elle vinha Saltando montes e valles, Perdi de todo a razão Precipitei-me nos males.

Saltei logo a vossa cerca. Sem mais pequena detença. Por não perdei o de vista Não vos fui pedir licença.

CANTA BENTA

Levai o carneiro. Já creio ser vosso : Ficar-me com elle Conheço não posso.

CANTA A 4* PASTORA, retirando-sc

Ficai-vos embora, Pastorinha bella, As nyrnphas vos teçam Mimosa capella.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 159

BAHE O PESCADOR COM O CARNEIRO, falia.

Venha para cá, meu carneiro, Venha para cá, meu amigo, Que me ha de servir de forro Cá dentro de meu umfeigo.

Não ha de chegar á porta, Nem tão pouco á janella ; Só ha de andar no íbgão Mettido em uma panella.

O peixe é para a noite, Você só para o jantar ; Como é hospede não qu ero Que tenha o peor lugar.

Ha de ter vinho na mesa, Não cuide que ha de ser só. Porque pôde, por descuido, Me dar na garganta um nó.

Chupei o bello quitute Que lá na fontinha achei ; Indo para cima um pouco, Com este carneiro encontrei.

Se acaso houver dono d'elle,

Ha de entrar com migo em contas ;

Entregai o não hei-de

Por meio de varias pontas.

SAHE A 4* PASTORA 6 falld

Venha cá, camaradinha, Onde este carneiro achou ?

PESCADOE

Por ventura elle é seu ? Meu trabalho me custou.

160 CANTOS POPULARES DO BRASIL

4* PASTORA

Dona sou bem verdadeira, A razão eu lhe direi ; Pois do curral me fugiu. Cousa que elle nunca fez; Mas só lhe digo, que esta Já é a segunda vez.

PESCADOR

Você, se quer o carneiro, Ha de me dar os signaes, Antes que o leve primeiro.

4' PASTORA

Elle é todo branquinho Só cora uma mallia em roda; Tem uma estrella na testa Que mal se vê, por subtileza, Que parece ser pintada, E não ser da natureza.

PESCADOR

Você cuida que eu estou doudo? Estou com tudo o meu sentido, Dê-me o signal que quizer, Com tudo isto, eu duvido.

4* PASTORA

Você, como o carneiro Não quer soltar das unhas, Eu irei chamar a Benta Que é bôa testemunha.

PESCADOR

"* Na verdade razão acho,

Para que dar testcmunha><?

Não grite, fallemos baixo. —(Z)á O carneiro)

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS ií>l

Quanto mais corre a noticia, Que na Lapa de Belém Nasceu, por nossa ventura, Jesus, todo nosso bem.

Vou agora até o rio

O meu colinho buscar;

Antes que algum curioso

Vá os meus peixes furtar. — ( Vai-se)

1* LAVADEIRA PARA A 2*

Vamos também para a fonte Nossa roupinha enxugar, Para também do trabalho Um pouquinho deseançar. —

o PlSSCADOlt Í'ARA AS LAVADEIRAS

Eu também vou té o rio

O meu còfinho buscar,

P'ra da minha pescaria

Algum peixinho offertar. — ( Fai-se).

SAHEM AS LAVADEIRAS, Cãntãndo.

o côfo do peixe Que nós achemos Na beira do rio Também levemos.

Já que a fortuna Nos entregou, O dono esquecido O não levou.

sAHE o PESCADOR, catitando.

Grande peça me fizeram, Grande logro me pregaram ; Toda a minha pescaria. Todo o meu peixe levaram.

CANTOS 1 1

162 CANTOS POPULARES Dtt BRASIL

AS DUAS LAVAUEltlAS

Vamos ás nossas cabanas Nossos peixinhos tratar, Que quem chupou o quitute Sem peixe venha a ficar.

Ainda que venha o dono Ha de levar por um óculo.

CHEGA-SE o PESCADOR AS LAVADEIRAS 6 díZ '.

Eu me vou chegando a ellas Antes que venha mais gente ; Hei de tomar o meu côfo A' força de unhas e dentes.

Senhoras, dê-me o meu côfo Que a mim é que pertence ; Sou obrigado á leval-o, Disto me não dispense.

Senhoras, dê-me o meu côfo Não quero graças agora, Pois eu estou de jornada E me quero ir emboaa.

{Começa elle a puchal-as ,)

AS LAVADEIRAS

Voce é que quer o côfo ? Ha de levar uma bota ; Não puxe assim pela outra, "Vá puxar sua avó-torta.

{Sahe a 4^ Pastora, toma o côfo das mãos das Lavadei- ras, entrega ao Pescador e di2:)

Pois que é isto, meu pastor, Que contenda é esta agora ; Sabe isto como se fax ? Tome já, vamos embora.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 163

AS DUAS LAV.^DEIRaS Pa RA A 4* PA8TCRA

Todavia, pastorinha, Olhe como é chibante, Entregue o que nos tomou Aqui já no mesmo instante.

O PESCADOR PaRA A8 DUAS LAVADEIRAS

O que foi que eu lhe furtei ? Um caboré de guisado ! Eu furtei porque estava Já de fome arrenegado.

FALLA A 4* PASTORA PARA O PESCADOR

Foi muito bem acertada Esta peça que vos fez ; E' para vós não cahirdes lí 'outro logrt» outra vez.

PESCADOR

E de mais, bellas meninas, Não sabem que succedeu ? Que hoje por nossa ventura Jesus em Belém nasceu ?

TODAS

Promptas 'staraos, mui contentes, Pois é o nosso desejo Que por tão alto convite As vossas plantas eu beijo.

CANTA o PE8CADDR

Grande prazer Temos na verdade ; Nasceu Deus menino Por sumraa bondade.

Repetem todos o mesmo.

164 CANTOS POPULARES DO BRASIL

CANTAM A8 LUAS LAVADEIRAS

Aceitai, Jesus Menino, Nosso coração sincero ; Aceitai, pois denti-o dellc Firmemente vos venei-o.

Grande prazer, etc.

CAKTAM A 3^ E 4^ PAbTORA

A hortaliça que trago E também o carneirinho Aceitai, não desprezeis, Perdoai a offerta minha.

Grande prazer, etc.

CANTA o PESCADOR

Este lindo rubalinho Que vós me destes na linha, Aceitai, não desprezeis A humilde offerta minha.

Grande prazer, etc.

Chegança <los Marujo»

(Sergipe)

Entrada

Todos : Entremos por esta nobre casa Alegres louvores cantando. Louvores á Virgem Pura, Graças a Deus Soberano.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS

165

O Contra-mestre : Olhem como vera brilhando Esta nobre infantaria ! Saltemos do mar p'ra terra, Ai, ai!... festejar este dia.

Piloto : Seu Contra-mestre,

Nosso leme está quebrado;

E a proa d'e8ta náo

Já está toda arrebentada

Contra-mestre : Senhor Piloto,

Aqui venho mo queixar Que o seu gageiro grande Botou-me a agulha no mar.

Piloto : Sem mais demora.

Meu gageiro preso já, Para elle me dar couta Da agulha de marear.

Gageiro : Senhor Piloto,

Se promette me soltar, Já eu lhe darei conta Da agulha de marear.

Piloto : Sem mais demora

Meu gageiro solto já, Qu'elle iá me deu conta Da agulha de marear.

Gageiro : Graças aos céos

De todo meu coração, Qu 'estou livre dos ferros, Bailando ii'e8te cordão.

Contra-mestre : Senhor Piloto,

Para onde está mandando? Já pelo seu respeito Estamos todos chorando...

Piloto : Seu Contra-mestre,

Não me venha indignar ; Veja bera qu'e8tou olhando P'ra agulha de marear.

166 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Contramestre : Senhor Piloto,

Onde está o seu sentido, Que pelo seu respeito Estamos todos perdidos ?

Piloto : Esta resinga

Não se ha-de se acabar Sem no fio d'e8ta espada Nos havermos de embraçar.

fSegue-se a briga ao mesmo tempo em que Ioda a marujada está cosendo o panno e cantando J

lodoB: « Triste vida é do marujo;

Qual d'élla8 é mais cançada?.,. Que pela triste soldada

Passa tormento Passa trabalhos,. ,

Dom dom....

« Antes me quizera vêr Na porta de um botequim^ Do que agora vêr o fim Da minha vida, Da minha vida. . .

Dom dom ...»

Contra-mestre : Virar, virar, camaradas,

Tirar com grande alegria, Para vêr se alcançamos A cidade da Bahia.

Dom dom...

Capitão : Fazem vinfannos e um dia

Que andamos n'onda8 do mar, Botando solas de molho.

Oh ! tolina, Para de noite jantar. Sobe, sobe, meu gagciro, Meu gageirinho real; Olha p'ra estrolla do norte,

Oh I tolina, Para poder-nos guiar.

BAILES, CHEG ANCAS E REISADOS 167

Gageiro : — Alvistas, (1) meu capitão, Alvistas, meu general, Avistei terras de Hespanha,

Oh ! tolina, Areias de Portugal ... Também avistei ires moças Debaixo de um parreiral • Duas cosendo seiim, Oh ! tolina, Outra calçando o didal.

Capitão : Desce, desce, meu gageiro, Meu gageirinho real ; Olha p'ra estrella do norte.

Oh ! tolina. Para nos poder guiar.

(Tudo isto é cantado e representado ao vivs. Dej^ois que o gageiro desce, a multidão dos marujos vai sahindo, e cantando á despedida).

Todos : Ora, adeus, ora, adeus, Que me vou a embarcar; Se a fortuna permittir Algum dia hei de voltar. Ora, adeus, bellas meninas, Que de Lisboa cheguei ; Ai ! pensavam que eu não vinha Para nunca mais as vèr!... Todos filhos da fortuna Que quizerem se embarcar, A catraia está no porto, A maré está baixa-mar. Quando Deus formou o navio Com seu traquete de lona, Também formou o marujo Lá no páo da bijarrona. Quando Deus formou o navio Com seu letreiro na popa. Também formou o marujo Com seu charuto na bocca.

(1) Por alviçaras.

168 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Quando me fôr d'esta terra Três cousas quero pedir : Uma é um mal de amores P'ra quando tornar a vir.

Aqui Jinda-se, e, pela rua, de uma casa para outra, vão cantando improvisos, como este, que pudemos colher

No jardim das ricas flores Vi uma rola cantando ; A rolinha abriu o bico O perfume arrespirando...

Chegança dos Mouros

(Sergipe)

Mar e Guerra : Atraca, atraca, atraca, Atraca com chibança ; Olhem que os inimigos Andam coranosco em lembrança,

Patrão: A'lerta! que gente é esta?

!N'e8ta bulha não posso dormir!.., Estava lá no meu quarto, Lá me foram consummir.

Todos : Olhem que grande peleja Temos nós que pelejar, Se fôr o rei da Turquia, Se não quizer se entregar! Trabalharemos com gosto P'ra nossa espada amolar ; Se fôr o rei da Turquia, Se não quizer se entregar.

Chegam os mouros e são intimados a renderem-sei

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 161)

Mar e Guerra : Entreiínem--e, mouros, A' Banta religião, Que dentro desta náo, Temos ferros no porão.

Hei Mouro : Eu não me entrego, nem pretendo No meio de tanta g^nte ; Somos filhos da Turquia, Temos fama de valentes.

Mar e Guerra : Entregucm-se, mouros,

Não f>e jtonham a brigar, Que no tio desta espada Todos hão-de ee acabar.

Rei Mouro : Eu não me entrego, nem pretendo No meio de tanta gente ; Somos filhos da Turquia, Temos fama de valentes.

Travase a lucta mais forte ; os mouros são derrota- dos^ seu rei é preso ; elles eniregam-se.

Mowos: Olhem, olhem que desgraça Nos havia de chegar! Que nós sendo tão valentes, Sempre nos ter de entregar !

Segue-se o baptismo dos mouros.

Capellão : Eu vos baptiso, mouros. Na santa religião, Fazendo de vós, brutos. Fazendo de vós christãos.

Depois da victoria, os nossos vão d terra, onde o pi» loto se entriga com o patrão, e este o fere. E' chamado o capellão para confessar o moribundo, que era seu próprio filho.

Piloto : Olhem que estocada

Me deu o mestre patrão ! Com esta sua bengala Traspassou meu coração !

17G CANTOS POPULARES DQ.BRASIL

Mandem chamar o capellão Que me venha confessar ; Que a ferida é mortal, D'eBta não hei- de escapar.

Capellão : O que tendes, meu rico filho, Filho do meu coração ? Dai-me um par de pistolas Qu'eu a vi da irei vingar-te...

Todos : Senhor padre capellão, Outro modo de viver; Não se fie nas orações. Que também ha-de morrer.

Capellão : Eu não me fio n'ella8,

Nem d'ellas eu faço conta ; Dai-me um par de pistolas Que a vida te irei vingar.

Retira-se o capellão.

Piloto : Mandem chamar o surjão, (1) Que venha me curar, Que a ferida é mortal, D'e8ta não hei de escapar.

Cirurgião

Desgraça minha Hoje aqui n'este lugar ; Se a vida eu não te der Nos ferros quero acabar. Mas eu não faço cura Sem o meu chefe não vêr Qu'e8ta tua ferida Corpo-delicto ha-de ter.

O cirur(/ião em quanto não chegam o Mar e Guerra e outros 'fiara tomarem conhecimento do crime, manda buscar os medi- camentos.

(1) Transformação popular de cirurgião.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 171

Cirurgião : Vem eá, Laurindo,

Vai depres.sa na botica, Vai com todo o cuidado, Traz de lá a medicina.

Laurindo : Aqui tem, meu rico amo, E também bello senhor, Aqui tem a medicina, Sahiu toda a seu favor.

Cirurgião : Unguento novo

Boto na tua ferida,

Bálsamo cheiroso'

E' com que darei-te a vida.

O piloto vai melhor ando e se restabelece.

Piloto : Graças aos céos

De todo meu coração, ^

Que já estou livre da morte, Bailando neste cordão.

Por este tempo vem o Mar e Guerra e os setís adjuncto^ e mandam prender o patrão.

Patrão : P'hv pureza de Maria, Pelos santos do altar, Que hoje é dia de festejo, Não costumara castigar.

O patrão, não sendo attendido, foi-se valendo de todos os circumstantes, um por um,, para o saltarem. Ninguém o atiendendo ainda.,elle valeuso de toda a m,arujadu que se pros- trou aos pés de Mar e Guerra, que, atinai o m,andou soltar.

Patrão : Graças aos céos

De todo meu coração,

Que já estou livre dos ferros.

Bailando n'este cordão.

Acabado o que, todos vão se retirando de casa, fingindo será marujada que vai aterra vender contrabando.

Marujos : Cheguem senhores mercantes, O seu preço venham dar Que a fazenda é mui fina. Para os seHhores trajar.

173 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Mercantes : Dou-lhe vinte um cruzados Pela fazenda real ; Se rião me quizer vender, Vou dar parte ao general ; «Saberá voasa excellencia, E também meu general, Qne os 8eu8 dous guardas marinhas Fazem negocio p'ra mal.»

Tomam a ma, onde vão cantando improvisos e versos popu- lares.

Reii^ado da Borboleta, do Maracujá e do I*iea-páo

(Sergipe)

8C JSN A V

{Apparece um grupo cantando)

Coro: Quando n'«8ta casa entramos, Toda cheia de alegria, Da cepa nasceu o ramo. Do ramo nasceu a flor, E da flor nasceu Maria, Mãe do nosso Eedemptor,

SCKNA 2*

(Apparece uma figura representando a borboleta)

Coro : Borboleta bonitinha, Saia fora do rosíil, Venha cantar doces hymnos, Hoje noite de Natal.

Borboleta : Deus lhe dê raui bôa noite, Bôa noite lho dê Deus ; Que eu não sou mal ensinada, Ensino meu pae mo deu.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS

Coro : Borboleta bonitinha, Saia fora do roeal ; Venha cantar doces hymnos, Hoje noite de Natal.

Borboleta : Eu sou uma borboleta, Sou linda, sou feiticeira; Ando no meio da casa. Procurando quem me queira.

Coro : Borboleta bonitinha,

Saia fora do rosal, etc.

Borboleta : Eu sou uma borboleta,

Verde da còr da esperança. Ando no meio da casa, Com alegria e bonança.

Coro : Borboleta bonitinha,

Saia fora do rosal, etc.

Borboleta : Eu sou uma borboleta, Vivo de ar e de luz ; Ando no meio da casa Com minhas azas azues.

Coro : Borboleta bonitinha,

Saia fora do rosal, etc.

Borboleta : Adeus, senhores, adeus, Já são horas de partir ; Entre a bonina e a açucena Já são horas de dormir.

173

8CENA d'

( O vaqueiro, quo ê uma espécie ãe palhaço, traz para scena um pé de maracujá artificial ; duas figuras entram e cantam).

i^ figura : Senhores, me dèm licença. Licença me queiram dar; Que eu vou chamar minli'irmã Pr'a apanhar maracujá.

174 CANTOS POPULARES DO BRASIL

2* figura: Minha irmã me chamou P'ra apanhar maracujá ; Senhores, me dêm licença, Licença queiram me dar.

Estribilho: Ecô, ecô,

Apanhar maracujá ; Maracujá perruche, Apanhar maracujá ; Maracujá de doce, Apanhar maracujá ; Bem apanhadinho, Apanhar maracujá; Bem machucadinho, Apanhar maracujá; Pela mão de ainhá, Apanhar maracujá.

SOENA 4*

{ Ippnrece vm tronco de arvore com dous «picapáos», dous meninos cantam em tomo do mesmo:)

Meninos ; Pinica-páo é marinheiro, Ninguém pôde duvidar. Com seu barrete vermelho, E camiza de zanga.

Estribilho: Sinhá Naninha

De Campos de Minas, Sinhô Mané, Corta-Páo,

Berimbáo ; Arrevira o páo, Meu pinica-páo, Torna a revirar, Quo isto não é máo...

Meninos : Pinica-páo de curioso

De um páo fez um tambor, Para tocar a alvorada Na porta do seu amor.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 175

Estribilho: Sinhá Naninhá

De Campos de Minas, Sinhô Mané, Córta-Páo,

Berimbáo ; Arrevira o páo, Meu pinica-páo ! Torna a revirar, Que isto não e máo!...

Meninos : Pinica-páo de atrevido Foi ao Rio de Janeiro Buscar sua mulatinha Que comprou com seu dinheiro.

Estribilho: Sinhá Naninha

De Campos de Minas, etc.

Meninos : Pinica páo, vamos embora Pede licença ás senhoras, Faz a tua cortezia, Procura o tom da viola.

Estribilho : Sinhá Naninha

De Catopos de Minas, etc.

SCENA 5*

{Representa-se o «Bumba nipu boi», exija descripção acha-se 7ia Introducção deste livro, e cujos versos são os seguintes : )

Coro : «Olha o boi, olha o boi,

Que te dá ; Ora, entra p'ra dentro,

Meu boi marruá. Olha o boi, olha o boi

Que te dá , Ora, ao dono da casa

Tu vaes festejar. Olha o boi, olha o boi

Que te dá ; Ora, dá no vaqueiro,

Meu boi fçuadimar.

176 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Olha o boi, olha o boi

Que te dá ; Ora, espalha este povo,

Meu boi marruá. Olha o boi, olha o boi

Que te dá ; Ora, sae da catinga,

Meu boi malabar. Olba o boi, olha o boi

Que te dá ; Ora. faz cortezia,

Meu boi guadimar...

{Depois de varias evoluções, finge-se o boi morto, e depois levanta-se,)

Vaqueiro : Levanta-te, meu boi, Vamo-no8 embora, Que a viagem é longa, I)'aqui píira íbra. O meu boi do Minas, Como boi primeiro. Com a festa do povo Dança de pandeiro. O meu boi de Minas Era um valentão. Chegando ao Capinha Derrubou no chão. O meu boi valente E' de coração ; Dança no escuro ;S^em um lampeão. Aqui estou esperando Bem de coração A sua resposta Oh ! seu capitão.

SCKNA 6'

(Eeunem-se todas as figuras e cantam em despedida:)

Ketirada, meu bem, retirada, Acabou-so a nossa funcção,

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 177

Não tenho mais alegrias, Nem tara bem consolação.

Bateu aza, cantou o gallo, Quando o Salvador nasceu ; Cantam anjos nas alturas Gloria in excelsis JDeo!...

Rei«»ado do «líosé do Valle

(Sergipe)

— Minha mãi assuba, Falle como gente ; Assuba o palácio, Falle ao presidente. Pegue na cabocla, Dè-lhe eo'o bordão, Qu'ella foi a causa Da minha prisão.

A minha prisão Foi ao meio dia, Nas casas extranhas Com grynde agonia. Mortinho á fome, Mortinho á sede, Só me sustentava Em canninha verde,

— « Dona. por aqui ? Grande novidade..,

« Vim soltar um preso Cá n'esta cidade... . Senhor presidente, Que dinheiro vale? Tenho duzentos contos Por José do Valle.

— « Dona, vá-se embora,

CANTOB 12

178 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Qu'eu não solto, não ; Que seu filho é mau, Tem ruim coração ; Matou muita gente Lá n'e8sc BcrLão ; Da minha justiça ííão faz conta, não. « Tenho meu lacaio De minha estimação, P'ra seu presidente Não tem preço, não. Senhor presidense, Pelo incontinente Solte Zé do Valle, Pelo Sacramento ! «Senhor Presidente, Não abra a porta, não ; Se eu cahir na rua. Faço escalação. . .» (1) «Minha mãi, vá-se embora, Deixe de cegueira, Qu'eu hei de ser solto No Eio de Janeiro.» «Quem tiver seu filho Dê-lhe ensinação, P'ra nunca passar Dôr de coração ; Quem tiver seu filho Dê-lhe todo o dia, Ao depois não passe Dores de agonia.» «Adeus, minha mãisinha, Mãi do coração ; Dê lembrança á Anninha, E a mou mano João ; Mana, vá-ee embora. Guarde o seu dinheiro, Qu'eu vou me soltar No Eio de Janeiro.»

{Segue-se o Bumba-msu-boi) (1) Desordem com resistência, ferimentos.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS J79

Reiísado cio A.ntonio Oeraldo

(Sargipe)

Seu Antonho Gerardo (1)

A.ssim niêtn'é ; (2) O seu boi morreu,

Assim mêm'é ; Qu'ha de se fazer?

Assim mêm'é ; E' tirar o couro

Assim mêm'é ; P'ra 8iá (3) Michaela,

Assim mêm'é. . . E Brisda (4) Amarella ;

Assim mêm'é. (õ) Vou fazer um peso Para amigos meus, Para Wenceslau E José Matheus. Osso corredor E' do professor ; Saiba repartir Com seu promotor. Eu peguei nos rins, Me esqueci da banha ! São p'ra Manoel Ivo E Chico Piranha. A chan de dentro E' de seií João Bento, A chan de fora De Dominíjos da Hora.

(1) Por Senhor Anlonio Geraldo, homem inculto da cidadã da Estancia (em Sergipe) que é o heróe dCesta rhapaodia.

(2) Mesmo é.

(:<) Por Sinhà ou Senhora.

(4) Por Brígida.

(5) A cada verso repete-se sempre este estribilho.

180 CANTOS POPULARIS DO BRASIL

Mocotó da mão

E' de Manoel Bomão ;

Mocotó do pé

E' de seu André ;

A passarinha (1)

E' de siá Nanzinha,

Saiba repartir

Com tia Anna Pibinha.

O figo (2) do Boi

Foi p'ra sarandage, (3)

O resto que ficou

Foi p'ra priquitage. (4)

Siá llíenên abra a porta

Sentido nos pratos,

Que a gente é muita

P'ra comprar o facto.

A tripa gaiteira

E' de Maria Vieira,

A tripa mais grossa

De Chico da Eocha.

O menino Enculapio

E' menino sabido ;

P'ra elle e Caetano

Só ficou o ouvido. (5)

{Segue-se o Bumba-meu-boi.)

(\) O baço.

(2) O fígado.

(3) A canalha.

(4) Chama-se assim a famiUa de uns ferreiros que existe ao Lagarto, espécies de ciganos, de que depois os filhos vão her- dando o mesmo officio. Seu maioral nos últimos cincoenta annos íoi o Evaristo Boi, varão popular n'aquellas paragens.

(5) N'este gesto vai-se dividindo o boi, e dando a cada um o seu pedaço, tudo isso debaixo de muita pilhéria e gargalhadas.

BA.ILES, CHEGANÇAS E REISADOS 181

Reissido do Cavallo IMarinho e Bumb»- meu-boi

(Pernambuco)

8CENA I

O Cavallo marinho a dançar, e o Coro

Có?-o— Cavallo-uiarinho

Vem se apresentar,

A pedir licença

Para dançar. i

Cavalio-marinho,

Por tua tenção,

Faz uma mesura

A seu capitão.

Cavalio-marinho

Dança muito bem ;

PóJe-se chamar

Maricas meu bem.

Cavalio-marinho

Dança bem hahiano ;

Bem parece ser

Um pernambucano.

Cavalio-marinho

Vai para a escola

Aprender a lêr

E a tocar viola.

Cavalio-marinho

Sabe conviver ;

Dança o teu balanço

Que eu quero vêr.

Cavalio-marinho,

Dança no terreiro ;

Que o dono da casa

Tem muito dinheiro.

Cavalio-marinho,

Dança na calçada ;

Que o dono da casa

Tem gallinha assada.

183 CANTOS rOPL LARES DO BRASIL

Cavallo-maririho, Vossê já dançou : Mas porém lá vai, Tome que eu lhe dou. Cavallo-marinho, Vamo-nos embora ; Faze uma mezura A' tua senhora, Cavallo-marinho, Por tua mercê, Manda vir o boi Para o povo vêr.

8CKNA II

O Amo, o Arlequim, o Matheus, o Boi, o Coro, o Sebastião e o Fidelis.

Amo — O' arlequim,

O' peccadoe meus, Vai chamar Fiuelis, E também Matheus. O' meu arlequim. Vai chamar Matheus, Venha com o boi E 08 companheirosi seus.

Arlequim — O' Matheus, vem cá.

Sinhô está chamando ; Traze o teu boi, E venhas dançando. Só achei o Matheus, Não achei Fidelis ; Bem se diz que neij;ro Não tem dó da pelle.

Amo — O' Matheus, cadê o boi ?

Matheus — Olá, olá, olá,

Bóio tá p'ra (rá, Bóio tá p'ra cá... Se minha boi chegoia Eu tá aqui ;

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 18í

E que foi esse

Pur aqui ?

O' meu xiubô,

Cadêl-o Bastião,

Cadêl-o Fidére ?

Para onde foro ?

Venham cá vossêa (para o Córo)

E também o bóio.

Entra o Boi.

Córo — Vem, meu boi lavrado,

Vem fazer bravura,

Vem dançar bonito, ^ Vem fazer mesura.

Vem fazer mysterioe,

Vem fazer belleza ;

Vem mostrar o que sabes

Pela natureza.

Vem dançar, meu boi,

Brinca no terreiío ;

Qae o dono da casa

Tem muito dinheiro.

Este boi bonito

Não deve morrer ;

Porqae só nasceu

Para conviver.

Matheus :—0' bóio, dare de banda, Xipaia esse gente, Dare p'ra trage, 8 dare p'ra frente... Vem m'ii p'ra baxo, Roxando no chão E dá no pai Fidére, * Xipanta Bastião... Vem p'ra meu banda Bem difacarinha, Vai mettendo u testa No Cavalio-marinha. Õ, ô, meu bóio, Desce d'e88o casa,

134 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Dança bem bonito No meio da praça... Toca esse viola, Pondo bem miúdo ; Minha bóio sabe Dança bém graúdo. CÓTò — Toca bom esta viola No bahiano gemedô, Que o Matheus e o Fidelis São dois cabras dançado. No passo da jurity, Tico-tico, rouxinô. Se Fidelis dança bem, O Matheus dança milho. O tocado da viola Tem 08 olhos muito esperto, O som da sua viola Parece»me um céo aberto. Eu quero boa viola Para fazer toda a festa, O bom pandeiro concerta O samba na floresta. Eu fui dos que nasci Na maré dos caranguejos, • Quanto mais carinhos faço, Mais desprezado me vejo. Como sou filho do povo. Tenho o dom da natureza ; Não sou feliz, mas bem passo Com toda a minha pobreza. Dança o boi, dança o Matheus, Dançam todos os vaqueiros ; Dançam que hoje nos temos Grande festa no terreiro.

Mathevs — Pára, pára, pára !

Quero dizè um recado: — Bóio dançou, dançou, Mai agora tá deitado !

t'^astião — Ah ! pracéro meu.

Bóio de sinhô morreu...

Matheus — A fembora, bobo,

O bóio divertiu muito.

BAILES, CHEGANÇAS E REISADOS 18S

Agora ficou cançado ; Toca bico do ferrão, P'ra tu vé como arrevira E te dá no chão.

8CENA tu

Os mesmos, o Doutor, Capitão do matto, D. Frigidei- ra, Catharina, e o Padre ; cahido o boi^ foge Fidelis, cha- ma-se um capitão do campo para o prender e um Doutor para curar o Boi ; apparece um Paire para fazer o casa- mento de Catharina.

, Matheus. — Minha bóio morreu !

Que será de mim ? Manda busca outro Lá no Piauhy.

Amo. — O' Matheus cadê o boi? Matheus. — Sinhô, o bóio morreu . . .

Sahe o Matheus espancado pelo amo

Amo. — O' Matheus, vá chamar O doutor para curar O meu rico boi : Quero saber do Fidelis Para onde foi.

O' Sebastião, vá á toda apressa, Chamo o Capitão do matto, Dè as providencia, Que traga o Fidelis Na minha presencia.

Checando o Doutor, ajusta com o Amo a cura do Boi; chegam D. Frigideira e Catharina, e Sebastião quer casar com esta; apparece o Padre para este fim.

Padre. — (^uem me ver estar dançando Não julgue que estou louco ; Não sou padre, nào sou nada ; Singular sou como os outroa.

186 CANTOS POPULARES DO BRASIL

Coro. — O' chente, que quer dizer Um padre nesta funcção ? E' signal de casamento, Ou d'alguma confissão.

Padre. — Bula bem na prima, Bata no bordão ; Arriba a funcção, Não se acabe não.

Doutor para Matheus. — O' negro, teu desaforo Já chegou aonde foi ; Quando tu me chamares E' p'ra gente e não p'ra boi.

Matheus. — Ah ! uê, ah ! uê ! Troco miúdo Tu vai recebe.

O Capitão do campo dá com o Fidelis e vai prendel-o.

Capitão. — Eu te atiro negro.

Eu te amarro, ladrão, Eu te acabo, cão.

O Fidelis vai sobre o Capitão e o amarra.

Coro. — Cpitão de campo,

Veja que o mundo virou. Foi ao matto pegar negro, Mas o negro lhe amarrou,

Copitão. — Sou valente afamado,

Como